domingo, 23 de novembro de 2014

Lições de sábado 164

Para que servem as estações? Paradas, retomadas obrigatórias, em que as mudanças podem ser notadas, não só uma data no calendário. Celebramos esses momentos, começando, reiniciando o que havíamos interrompido. Comemoramos o novo, sem saber como será. E reunimos os símbolos que tragam boa fortuna. Não só um gesto, mas o significado do gesto. Não só uma guirlanda, mas o que está por trás desse símbolo, para que renove, em nós, o que desejamos de bom.

24/11/2014 - 5h48


Lições de sábado 163

Às vezes nos preparamos a vida inteira para uma missão, para um único amor que não sabemos qual é, mas ao descobri-lo entendemos que tudo que fizemos nos moldou e nos trouxe até ali, àquele destino, àquela pessoa.


19/11/2014 - 4h06




sábado, 15 de novembro de 2014

Lições de sábado 162

Este ano acaba em novembro. Ele foi longo demais, tedioso demais, arrastado demais, cheio de surpresas e desvios, erros e correções de trajetória. Muitas coisas deram certo. Outras nem tanto. E o que deu errado, tivemos de nos resignar. Não se conserta o que se partiu. Não se refaz o que se desfez, não se recobra o que se perdeu. O que foi perdido, perdido está. Nada poderia ter sido diferente. Mas o que deu certo, continua e essa é a nossa única salvação. Os atos se dividem em certo e errado, bons e maus, porém, no bem, há sempre algum mal que medra. Nos acertos, alguns erros são aceitos. E no que foi ruim, tentamos ver algo de bom. Este ano acaba em novembro. Não dá mais para aguentar perdas, gastos, desgastes e decepções. Contemos só as coisas boas. As que permanecem. O que passou é fruto caído da árvore em outro terreno. Por isso antecipei o fim para que só conte o que foi bom até aqui. O que não é, precisa ser desfeito. De algum modo, antes do fim.
15/11/2014 - 15h17


sábado, 8 de novembro de 2014

Lições de sábado 161

O mês que passou trouxe grandes mudanças. Em trinta dias, a vida se reconstruiu. O estado iminente de coisas precipitou-se e o que era indefinido, definiu-se. As máscaras caíram todas ao chão. E o indizível ficou suspenso entre a ordem e a ofensa. Quem passou incólume por tamanha cizânia? Acusam-nos do que não fizemos, não compreendem nossos atos, e tomam decisões à revelia. A verdade custa a aparecer, mas quando surge, traz uma feiura consigo. Os rostos não são mais os que conhecemos. São estranhos os que costumávamos chamar de família. E, sem explicações, passamos uma borracha naquilo que ficou pendente, porque todas as dívidas foram pagas ou criaram-se outras. Não compreendemos a falta de amor semeada dia a dia em nossa vida. Em vez de compaixão, vingança. São os elos partidos daquilo que nos foi dado de graça. Trajetória corrigida, só nos resta seguir, pois nada mais nos prende ao que passou.

8/11/2014 - 22h37


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Lições de sábado 160

Quando um problema de matemática vira uma questão de educação: uma atendente recebe um pedido de pizza com dois sabores, mas não informa que só pode ser meio a meio. Pedem 2/3 marguerita e 1/3 quatro queijos. Ela não entende que isso não é 1/2 e traz a pizza metade de cada sabor. Ao receber a reclamação de que eles não haviam sido atendidos corretamente, ela insiste em dizer que a pizza só pode ter dois sabores meio a meio. Mas como não entendeu a fração, não pôde explicar o erro e se aborreceu. Eles queriam dois sabores, mas não naquela proporção. Tem vezes que a educação é uma questão de proporção. Os fregueses também reclamaram e chamaram o gerente. Ao se aborrecer, a atendente virou as costas e abandonou a mesa, ao que o marido perguntou: "Você sabe o que é 2/3?" Bate-boca inútil, a criança de quatro anos presenciou os pais brigarem por algo que pediram errado e a atendente humilhada, porque não sabia (ou esqueceu) a matemática.

18/10/2014 - 1h18




sábado, 11 de outubro de 2014

Lições de sábado 159

O poeta se cala enquanto espera o novo poema. Os poemas se fazem na ausência de pensamento, e a surpresa faz parte de sua urdidura. O poema traz à tona emoções que estavam escondidas, não o que o poeta disse, mas o que ele fez sentir. O poeta não sabe quando escreverá seu novo poema. E enquanto espera, olha para todas as coisas como se não as conhecesse. O estranhamento faz parte da descoberta do poema. Porque ao tentar explicar o que vê e sente, nasce o poema. Não o que ele pensou escrever, mas o que o poema diz. Tudo é metáfora, como disse Neruda. Há metafísica bastante em não pensar em nada, disse Pessoa. O pensamento constrói uma forma em algum lugar. E o nada não é nada e sim o que não vemos. 

11/10/2014 - 23h19



Lições de sábado 158

Fui a um lançamento da editora na sexta passada, quando minha mãe foi hospitalizada, e parei na frente da estante de guias de turismo, e vi um guia de Paris, me lembrei de mamãe e pensei imediatamente: “Não vou ter mais para quem comprar esses livros”. Tudo que eu achava interessante comprava para ela, fosse um livro sobre história do Brasil, sobre Santos-Dumont, ou Monteiro Lobato. Tudo que eu sabia que interessava a ela, desde livros de receitas e orações, histórias de santos ou dos papas, tudo que pudesse entretê-la. E como todos os assuntos a interessavam, ela poderia ler sobre qualquer coisa. Ela fazia coleção de dicionários. Sobre todos os assuntos. Desde tupi a japonês. De ciência mecânica à astrologia. Tudo era motivo de estudo e pesquisa espontânea. Era a rainha dos dicionários e irmã das enciclopédias. Tudo que não sabíamos, ela dizia para consultar o Aurélio ou a Enciclopédia Britânica, o que hoje seria resolvido com uma olhada no Google. Mas não havia internet e os almoços eram divididos com livros sobre a mesa. A refeição era usada para partilhar as últimas descobertas ou dividir os últimos conhecimentos. Era uma mania da família mostrar saber algo que ninguém sabia. E assombrar a todos. Em contrapartida, éramos loucos para aprender. Isso foi um hábito que durou muitos anos até meu irmão ir para a Europa morar com meu pai. Mesmo assim minha mãe não encerrou suas pesquisas. Acabei de achar numa gaveta recortes de jornal de 2000 sobre tudo que é assunto que pudesse interessar a alguém. Se ela sabia que um amigo estava precisando de algo, logo ela recortava um anúncio de jornal para ele. Encontrei poemas que ela escreveu até julho, quando ela deixou de andar. A letra já estava indecifrável, mas ela achava que podia escrever haicais. Eram mais curtos e rápidos, assim não teria de escrever muito, e a caligrafia frágil encheu uma página de haicais rabiscados. Minha mãe era uma surpresa, impossível legado, pessoa cheia de altos e baixos e extensas planícies. Amorosa sem floreios. Direta e precisa. Se mais não fez, não foi necessário. Teve o tempo para urdir sua semeadura. E deixar em muitas pessoas a sua marca.

9/10/2014 - 9h26