sexta-feira, 20 de março de 2015

Lições de sábado 197

Missão: aniquilar a ignorância. Incutir em todos os valores da literatura, dos livros, dos poemas, dos romances, da História, das personalidades históricas, dos personagens literários, das lendas, dos contos de fada, das parábolas, das crônicas, dos contos, dos filmes, dos desenhos animados, das histórias em quadrinhos, criando uma conversa mais rica e útil, espalhar a cultura geral, o conhecimento, os detalhes biográficos, a História do Brasil, os políticos notáveis, criando uma perspectiva histórica, explicando a base legal da Constituição, das leis novas e antigas, o uso correto da gramática e do vernáculo, as acepções das palavras, a origem das expressões que usamos, os usos e costumes dos negros e dos índios, dos povos que imigraram para o Brasil trazendo suas tradições, a herança portuguesa. Explicar de modo muito simples como aconteceram essas influências ao longo do tempo, dando mais importância à nossa própria existência.

20/03/2015 - 22h00




Foto de Vitor Vogel para "As liras de Marília", Ibis Libris, 2013. 

quinta-feira, 12 de março de 2015

Lições de sábado 196

Há dias em que nem deveríamos acordar, como disse Silvio Ribeiro de Castro em seu poema "Amantes", mas temos de sair da cama assim mesmo. Nada dá certo nesse dia. Recebemos uma carta de cobrança, um mandado de intimação, um oficial de justiça na porta, um telefonema do banco, um e-mail de alguém insatisfeito, um boleto de custas judiciais da Vara da Fazenda Pública de uma dívida herdada dos nossos pais. Há dias em que não estamos preparados para receber más notícias, mas temos de recebê-las assim mesmo. A morte de um conhecido, o acidente de um ator famoso, a condenação de um músico por fraude, quando tudo que ele queria fazer era prestar uma homenagem ao cantor. A primeira página do jornal está cheia de notícias terríveis. Vão aumentar a alíquota do imposto de renda, a luz e a água subiram, o IPTU está mais caro, a água vai ser racionada, os preços do supermercado subiram, mas temos de pagar as contas do mês assim mesmo. A única diferença quando essas coisas acontecem e quando não acontecem é que agora sabemos quem é o inimigo e o tamanho da fatura que teremos de pagar, e que tudo que fizemos até hoje pode ser entendido ao contrário, porque quem nos vê pensa que tudo nos é dado de graça, quando isso não é verdade. Só nós sabemos quanto temos de correr para ficar no mesmo lugar, como é matar um leão por dia, o esforço que fazemos para que tudo dê certo no final. Mas ninguém se importa. Só interessa o flash e o clique da máquina fotográfica congelando o momento e ali você parece feliz e despreocupado. Não interessa se a pressão subiu ou possa estar sofrendo de diabetes. O mundo não é uma foto no Facebook. Há dias que pedimos que acabe logo, mas ele irá durar as exatas 24 horas de qualquer dia. E nossa vida o tempo regulamentar ou até puxarem o cartão vermelho do bolso e nos colocarem para fora de campo. Até lá, sorria. Não vai fazer a menor diferença se der certo ou não, porque tudo no final se ajeita. Os caminhos são tortos, e muito tortos, por sinal. Já passamos por tantas poucas e boas, e não vai ser agora que isso vai mudar. Dizer que eu errei não me faz ter cometido o erro. A crença de que erramos não é o erro. Quando nos acusam, acusam em si mesmos o que não fizeram e temos de provar a nossa inocência, quando se é inocente até prova em contrário. Há dias que não deveriam existir no calendário, mas existem. E nada pode ser feito para evitá-los. Mas acredite que, no final, o feitiço vira contra o feiticeiro.
12/03/2015 - 21h51


sábado, 7 de março de 2015

Lições de sábado 195

Deixamos para depois as primeiras necessidades. Aprendemos a procrastinar. Um desejo adiado é um desejo irrealizado. "Um beijo não dado é um beijo perdido para sempre", disse-me uma amiga quando eu tinha 13 anos de idade, e nunca mais esqueci disso. Pautei a partir dessa frase todas as decisões que tomei na vida. Eu não deixava para depois o que poderia fazer agora. Não fazer algo poderia adiar para sempre o que eu desejava fazer. Então, por que esperar? Saber tomar decisões na hora certa é fundamental para acertar seu futuro. Dúvidas e decisões adiadas suspendem os efeitos das nossas ações. Não agir é o melhor modo de não ser, exceto quando for uma escolha. Também é preciso saber quando não agir. Trinta anos depois, minha amiga morreu, mas no dia do seu enterro, um pensamento me assaltou enquanto eu atravessa o cemitério até o crematório: "Um beijo dado é um beijo guardado para sempre". Era a resposta que ela guardara para mim mesmo atrasada para o velório e a cerimônia de cremação no Caju. Aprendi com ela a não adiar, a não procrastinar, a não deixar para depois o que poderia fazer agora, e somente adiar o que fosse impossível fazer hoje. Aprendi com outra amiga a não me esforçar desnecessariamente. Todo esforço induz ao erro. "Suavemente, sem esforço", ela dizia. Então aprendi a esperar o momento de agir, quando não houvesse esforço. Aquilo que vinha naturalmente era o sinal do acerto. Buscar o equilíbrio entre agir e não agir é uma ciência pouco estudada. E saber ler os sinais do que está à nossa frente. Aceitar o imponderável e compreender o imprescindível. Seguir a intuição. Decifrar o que nos é apresentado como segredo. Os gênios aprendem a decodificar o presente. Nele está tudo que precisamos saber trazido do passado, e que nos mostram, por meio de símbolos, o que precisamos aprender.
7/03/2015 - 16h37


sábado, 21 de fevereiro de 2015

Lições de sábado 194

Hoje foi um dia de perdão. Não apenas o perdão que buscamos dar, mas o que queríamos receber. O perdão é só um gesto que tem o condão de transformar o sentimento que estava perdido, de retomar a direção que deveríamos ter seguido e que perdemos no curso dos dias. Basta que um perdoe para que todos perdoem e possam ser perdoados, reaproximando os que se afastaram por essa negligência, por essa falta de perdão. O perdão absolve, dissolve os nós da carne e restabelece o diálogo. O que julgávamos ter perdido é devolvido intacto, como se o tempo tivesse suspendido todos os efeitos da negação. Se hoje perdoei e fui perdoada por quem nem esperava ouvir esse pedido, abranda e aproxima as distâncias que nos impusemos. Tudo que foi dito por erro ou pelo ego. Tudo que foi pensado injustamente. E nos vemos novamente no ponto de partida. Recomeçar é um ponto de partida. Mesmo que nada se possa fazer para mudar o que aconteceu, pode-se mudar o que será feito. Novas palavras serão ditas para remediar o espaço em branco, o vácuo, a cisma, o abismo. E não há outro conforto senão ver novamente próximas as pessoas que pensamos haver perdido. Retomamos a caminhada com a certeza de que o mesmo erro não será repetido.

22/02/2015 - 00h50


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Lições de sábado 193

"Do amor, não se faz biópsia, só se faz autópsia", disse-me um amigo citando outro. Várias vezes recorri a essa máxima, toda vez que tentava entender o momento que estava vivendo de certo relacionamento. Quando somos capazes de dissecar uma pessoa, ela já morreu. E, por algum tempo, mantemos o luto. E, em outro, mantemos distância. Tentamos entender racionalmente o que não se explica nem pela emoção. A emoção nos trai a todo momento, porque somente guardamos o que foi bom. E temos de nos lembrar o que não deu certo. O que nos tirou da rota e nos desviou do caminho. Que escolhas fizemos para nos proteger. Há homens impossíveis de amar. Por serem incapazes de demonstrar o amor que sentem. E expressam exatamente o contrário. Colocam a raiva e os ressentimentos em primeiro lugar. Não podemos tentar analisar tudo, pois não é uma sessão de terapia. Tentamos, parcialmente, compreender o que falhou, o que faltou, o que nos fez mudar de direção. Um encontro é carregado de expectativas, que se desenrolam suavemente e, por vezes, encontram obstáculos, surgem mal entendidos, criam-se problemas que não prevemos. Nunca prevemos problemas. Sempre temos de enfrentá-los a frio. Sem preparação. E não podemos desfazer as escolhas, nem retirar o que dissemos e o que ouvimos. Se um amor não deu certo, acertamos quando quisemos amar. E quando nos acreditamos amados. E, depois, quando não resta nem mais a ternura que nos aproximou, passamos a desfiar os enganos, os atos inesperados, as acusações esdrúxulas. Partimos. E, nessa separação, nos distanciamos rapidamente do ser que amamos, para passamos a vê-lo como miragem. Como ilusão de um dia ter amado alguém impossível de amar. Por se negar a receber esse amor como o oferecemos. Amor não exige fórmulas. Apenas brandura, porque ninguém é obrigado a ser quem não é, nem a obedecer ordens de um parceiro tirano. Na necropsia, retiramos o coração e o olhamos de perto. O que ele não possui que não conseguimos entender? Nem aceitar? E na mistura estranha de amor e ódio, aquecidos pela falta do ser que queríamos amar, vemo-nos inteiros, a acalentar um tempo que pareceu um sonho e, como de todo sonho, despertamos. 

16/02/2015 - 22h26




sábado, 14 de fevereiro de 2015

Lições de sábado 192

Tudo que fazemos está interligado de algum modo. Seja porque pensamos ao mesmo tempo nas mesmas coisas, ou dizemos coisas parecidas, ou escrevemos poemas que "conversam" entre si. As coincidências querem dizer que seguimos uma linha do tempo, um fio condutor, uma sequência que nos coloca na trajetória de outras pessoas. Os "acasos objetivos" de Breton explicam por que estamos num lugar e não em outro para encontrar quem devemos conhecer. E ao mesmo tempo nos livrar daquilo que não devemos padecer. Ninguém tem mais sorte do que outros. Todos estão no mesmo plano de igualdade, embora não seja aparente. Por isso a inveja é uma perda de tempo. Cada um está onde deve estar, e não em outro lugar onde desejaria. A escolha faz parte disso, mesmo as inconscientes. Temos uma missão a cumprir no meio desses acasos, coincidências e encontros gratuitos. Nada acontece por acaso. E mesmo os acasos objetivos têm um motivo. E não devemos lamentar o que não aconteceu. Pode estar sendo protegido de algo pior. Quando algo não dá certo, não devemos lastimar. Melhor antes que depois. Depois pode ser muito mais complicado desfazer. Recomeçar do zero, às vezes, é a melhor opção.
14/02/2015 - 17h58


domingo, 8 de fevereiro de 2015

Lições de sábado 191

Na vida, temos muitos amores. Ainda bem que podemos amar tantas pessoas. Encontrá-las é o que basta para começar a amá-las. Algumas surgem de surpresa, sem que esperemos conhecê-las. Outras já estão ali, sem que percebamos. Mas toda vez que conhecemos alguém importante, há um sinal para que prestemos atenção. Às vezes, é uma palavra, outras, é um gesto. Mas não deixamos de amá-las se não as vemos, porque continuam presentes em nós, como se as víssemos todos os dias. Algumas não vemos por muito tempo. E ao reencontrá-las é como se tivéssemos nos visto na véspera. E há outras em que nos vemos todos os dias por algum tempo. Depois elas se vão. Mas aquele período ficará gravado como um capítulo em nossas vidas. Inapagável. Há os que vêm e ficam, há os que vêm e se vão. Nada dura para sempre. Mas os amigos que ficam por mais tempo são os que temos o prazer de desfrutar de modo permanente. "Nada é mais extremo que a permanência", escrevi num poema. E nada se compara ao tempo que passamos com nosso amigo. Sobre isso já tinha lido em "O Profeta", de Khalil Gibran, sobre a Amizade. Sempre lembro das imagens que invocou para explicar a amizade. "Quando vos separais de vosso amigo, não vos aflijais. Pois o que vós amais nele pode tornar-se mais claro na sua ausência, como para o alpinista a montanha aparece mais clara, quando vista da planície". Amigos vêm e vão. Podemos conhecer mais pessoas, fazer mais amigos, mas aqueles que temos mais perto de nós nunca se afastarão.

8/02/2015 - 15h50