segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Lições de sábado 265

Para os brasileiros, a galeria de presidentes da República é um encontro de personagens sui generis. Observando os que estão aí, o meu tataravô Prudente de Moraes não poderia deixar de estar, bem no alto, ao lado da Marianne, a imagem francesa da própria República. Fora uns três que não reconheço, essa capa é nova, pois já inclui Dilma Roussef. Eu tinha esquecido que o autor Paulo Schmidt estava na minha lista de contatos. Eu não sou muito fã de um guia politicamente incorreto, mas é o que os brasileiros precisam ser, politicamente incorretos para suportar a atual cena política. Já que a vergonha na cara virou artigo de luxo, vamos entender essa gente que acaba sendo eleita por nós (quer dizer a maioria, já que a maioria é que manda).

11/12/2016 - 11h48


Lições de sábado 264

Meteoros, asteroides, cometas, nuvens cósmicas, planetas, sóis, estrelas, luas, o cosmos gira à nossa volta e nós à volta de nós mesmos, girando em revoluções e translações, esperando o ano recomeçar, como se mudássemos o destino mudando de filme, de livro, de casa, de bairro, de mulher, de marido. Os cometas sempre retornam ao seu lugar de origem, cumprem sua longa órbita oblíqua, tornando-se novamente visíveis. Tudo é efêmero e tudo passa, só importa o hoje, o agora, aqui, este instante, este pensamento, porque tudo o mais é inconsútil, é memória, lembrança, reminiscência, e o que faremos pertence ao porvir, o tempo espacial ao qual pertenceremos no futuro.
12/12/2016 - 2h40


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Lições de sábado 263

O que passa pela sua cabeça há mais tempo? Qual ideia você trouxe da infância? Ontem eu li num livro de frases: "O menino é o pai do homem". É assim desde Aristóteles, é assim desde Freud. Tantos pensadores refletiram sobre a vida e sabiam que sua infância pontilhou seu futuro. O que é mais caro a você desde que você se dá por gente? Aquilo que faço hoje é reflexo do que sempre fiz desde menina: ler livros e contar histórias. E por isso passei a fazê-los e é um aprendizado constante. Tudo que penso está em "Alice atrás do espelho", livro que li quando menina. Minha vida é um jogo de xadrez. Montar estratégias. De peão chegar a rainha. Lembram da história?
4/11/2012 - 11h43


sábado, 15 de outubro de 2016

Lições de sábado 262

Cada um tem o seu herói. Quando somos pequenos, queremos ser Peter Pan, ou Sininho, e sair voando até a Terra do Nunca. Não medimos esforços para conviver com nossos ídolos infantis, sejam da Disney ou da Marvel. Todo mundo já adorou assistir a Batman e Super Homem, mesmo antes de se digladiarem, e Capitão América e Thor continuam cada vez melhores. Não há Star Trek que nos impeça de sonhar com mundos onde o homem jamais esteve. Mas os heróis têm um motivo. Ninguém cantou "Twist and shout" só por gritar. Havia algo de derradeiro e de dernier cri nesse movimento pop que fez com que todos mudassem de modos e costumes. O mundo não foi mais o mesmo depois do rock'n'roll, dos beats e da contracultura. Por mais negligenciados que tenham sido (e foram). Mas os heróis ou heroínas são feitos de múltiplas máscaras que vestimos para enfrentar o mundo. São contos de fada modernos. Vêm embalados em velocidade do som e em anos-luz. Queremos escapar para um lugar onde ninguém irá atrás de nós. Somos Blade Runners involuntários, vivendo num mundo que pertence cada vez menos a nós. E os mitos, mitologias, fantasias, histórias em quadrinhos, ficções científicas e, por que não dizer, a literatura, preenchem esse vazio existencial que é o dia a dia. Escolhemos heróis para encarar a vida. Eles nos dizem que vale a pena seguir, mesmo que seja por uma via estreita, a mais difícil, a menos ponderada. Bob Dylan fez isso, não a mim, mas a muitos dos seus fãs. Eu escolhi outros heróis. Talvez não tão descolados, tão engajados, tão hardcore como Dylan, mas eram meus heróis e heroínas, que continuam me fortalecendo, seja Capitu, em "Dom Casmurro", seja Lorelei, em "Um aprendizado", de Clarice Lispector. Ter heróis é importantíssimo. Eles entram no lugar dos deuses mitológicos, quando não forem estes que nos ajudam a continuar.
Viva o professor! 
15/10/2016 - 18h43


quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Lições de sábado 261

Não sou mais criança. Aprendi duramente como amadurecer. Nada foi dado de graça, por mais benesses que eu desfrutasse. Tudo teve um custo. Tudo teve um preço. Por mais que eu tentasse, algo parecia falhar. Perfeição dura a chegar. Aprendi a me aperfeiçoar aos poucos. Lentamente. Como quem ergue um edifício. Para, do alto, poder contemplar a planura. E, durante o caminho, tropecei, fui alvo de críticas e puxadas de tapete, de mentiras e traições, de inverdades e injúrias. Nem todos permaneceram comigo. Poucos conhecem os degraus da escada que subi. Mas quem viu de perto, sabe o que houve, sabe o que eu fiz e por quê. Quem não souber, não vale a pena explicar. Vai demorar muito tempo. Descobri que é melhor depurar-se do que se deixar poluir. Aos poucos, saber fazer melhor. É um longo treino, que leva a vida inteira. E, às vésperas dos sessenta anos, só fui superada por quem chegou lá antes de mim. Por não ser mais criança, aprendi o que deveria saber há muito e, ao mesmo tempo, não esqueci o que é ser criança. Eu nunca fui mais velha do que dezoito anos. Dentro de mim, guardo essa idade. Para que, mais tarde, eu me lembre de mim.

6/10/2016 - 00h34 

Para Hariklia Papapetrou, que lê todas as Lições de sábado e fica esperando por elas. Gratidão, amiga.

Foto de Fabio Giorgi: "7o. dia de chuva".

domingo, 11 de setembro de 2016

Lições de sábado 260

A revisão é uma arqueologia do poema. Vamos tirando por camadas e enxergando mais fundo. Não há como ver tudo de uma vez, nem se perguntar por quê. Há coisas que só se descobre no processo. O que pensamos no início muda no final. Fazemos pequenas loucuras todos os dias, como continuar vivos e desafiar o equilíbrio das coisas ao continuar nos movimentando. Estamos em contínuo desafio às leis da natureza. Queremos ser como somos e não como querem que sejamos. E isso é estar além do que foi pensado ou se pensou de nós. Nós que não pensamos o que somos e somos o que somos mesmo assim. É um profundo exercício fazer livros, sabendo que é uma atividade limite, limítrofe a todas as outras. Vivemos apesar e sem eles. É como se existíssemos à parte de tudo que dá dinheiro, e fizéssemos o que ninguém espera, mas mesmo assim esperam de nós. Tenho pensado muito sobre isso, já que o tempo avança e parece desafiar o que faço como o faço. É preciso mudar, adaptar-se, ser mais blogueira e Kéfera para ter mídia, milhões que visualizam youtubes e coisas afins. E se nada disso importa? E o que importa é o que somos, mesmo que ninguém saiba e não saia em mídia nenhuma? Quando vejo editores vendendo os tubos com livros sobre economia ou vampiros, ou qualquer outra coisa que não seja poesia, penso, deixe estar, eu não saberia vender minha alma para esse tipo de coisa.

11/09/2016 - 16h36


quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Lições de sábado 259

Livros de poesia são pièces de résistance. Quando tudo o mais parece fenecer, eles sobrevivem dando novo fôlego a quem pensa que está no fim. Quando não há mais nada a ser feito, os poemas são escritos, na solidão, na clausura, na prisão, no exílio. As cantigas de amor e de amigo surgiram na distância. A poesia supre quando se pensa não mais haver saída, porque é escrevendo que aprendemos a esperar. E os que leem aprendem também. Como o poema de William Ernest Henley, que Nelson Mandela leu durante 30 anos em sua cela, acreditando que um dia iria sair de lá, invicto, com a cabeça erguida, como diz o poema. Muitos poemas alimentam nossos sonhos e constroem a nossa fé. Seja escrevendo ou lendo-a, a poesia tem sido o cimento para abrirmos as estradas para onde queremos ir. 
Minha tradução para o poema de William Ernest Henley (1849-1903):
INVICTUS (1875)

Diante da noite escura que me cobre,
Como uma cova aberta de um lado a outro,
Agradeço aos deuses
Por minha alma invencível.
Nas garras vis das circunstâncias,
Não titubeei, nem chorei.
Sob os golpes do infortúnio,
Minha cabeça sangra ainda erguida.
Além deste vale de iras e lágrimas,
Assoma-se o horror das sombras,
E apesar dos anos de ameaças,
Sempre me encontrarão destemido.
Não importa quão estreitas sejam as passagens,
Nem quantas punições sofrerei:
Eu sou o senhor do meu destino:
Eu sou o capitão da minha alma.
Tradução: Thereza Christina Rocque da Motta
William Ernest Henley escreveu o poema em 1875, mas somente o publicou em 1892, numa coletânea chamada "Echoes".