segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Lições de sábado 267

Meu pai era o chefe do departamento jurídico do Itamaraty quando chegou para ele esta consulta: qual deveria ser o nome do país a partir da constituição de 1967, que até então chamava-se Estados Unidos do Brasil? Papai pegou o texto da nova constituição que estava em tramitação na Assembleia Constituinte e leu: "Art 1o.: O Brasil é uma República Federativa", portanto, República Federativa do Brasil. Estava dado o nome ao país como se fosse o ovo de Colombo, mas papai nunca quis assumir a autoria, embora tivesse escrito isso em seu parecer. Ele deu o nome ao Brasil e continuou incógnito. Na mudança para a atual constituição, eliminou-se esse artigo e copiou-se o introito da constituição americana, embora não sejamos mais Estados Unidos do Brasil.

8/12/2016 - 6h18


Lições de sábado 266

Os últimos fatos me mostraram o seguinte: que a verdade é melhor do que a pior mentira e agir de boa fé nos protege de um azar maior. Nem tudo acontece como se espera, mas pode acontecer melhor do que se esperou.

10/12/2016 - 8h07


Lições de sábado 265

Para os brasileiros, a galeria de presidentes da República é um encontro de personagens sui generis. Observando os que estão aí, o meu tataravô Prudente de Moraes não poderia deixar de estar, bem no alto, ao lado da Marianne, a imagem francesa da própria República. Fora uns três que não reconheço, essa capa é nova, pois já inclui Dilma Roussef. Eu tinha esquecido que o autor Paulo Schmidt estava na minha lista de contatos. Eu não sou muito fã de um guia politicamente incorreto, mas é o que os brasileiros precisam ser, politicamente incorretos para suportar a atual cena política. Já que a vergonha na cara virou artigo de luxo, vamos entender essa gente que acaba sendo eleita por nós (quer dizer a maioria, já que a maioria é que manda).

11/12/2016 - 11h48


Lições de sábado 264

Meteoros, asteroides, cometas, nuvens cósmicas, planetas, sóis, estrelas, luas, o cosmos gira à nossa volta e nós à volta de nós mesmos, girando em revoluções e translações, esperando o ano recomeçar, como se mudássemos o destino mudando de filme, de livro, de casa, de bairro, de mulher, de marido. Os cometas sempre retornam ao seu lugar de origem, cumprem sua longa órbita oblíqua, tornando-se novamente visíveis. Tudo é efêmero e tudo passa, só importa o hoje, o agora, aqui, este instante, este pensamento, porque tudo o mais é inconsútil, é memória, lembrança, reminiscência, e o que faremos pertence ao porvir, o tempo espacial ao qual pertenceremos no futuro.
12/12/2016 - 2h40


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Lições de sábado 263

O que passa pela sua cabeça há mais tempo? Qual ideia você trouxe da infância? Ontem eu li num livro de frases: "O menino é o pai do homem". É assim desde Aristóteles, é assim desde Freud. Tantos pensadores refletiram sobre a vida e sabiam que sua infância pontilhou seu futuro. O que é mais caro a você desde que você se dá por gente? Aquilo que faço hoje é reflexo do que sempre fiz desde menina: ler livros e contar histórias. E por isso passei a fazê-los e é um aprendizado constante. Tudo que penso está em "Alice atrás do espelho", livro que li quando menina. Minha vida é um jogo de xadrez. Montar estratégias. De peão chegar a rainha. Lembram da história?
4/11/2012 - 11h43


sábado, 15 de outubro de 2016

Lições de sábado 262

Cada um tem o seu herói. Quando somos pequenos, queremos ser Peter Pan, ou Sininho, e sair voando até a Terra do Nunca. Não medimos esforços para conviver com nossos ídolos infantis, sejam da Disney ou da Marvel. Todo mundo já adorou assistir a Batman e Super Homem, mesmo antes de se digladiarem, e Capitão América e Thor continuam cada vez melhores. Não há Star Trek que nos impeça de sonhar com mundos onde o homem jamais esteve. Mas os heróis têm um motivo. Ninguém cantou "Twist and shout" só por gritar. Havia algo de derradeiro e de dernier cri nesse movimento pop que fez com que todos mudassem de modos e costumes. O mundo não foi mais o mesmo depois do rock'n'roll, dos beats e da contracultura. Por mais negligenciados que tenham sido (e foram). Mas os heróis ou heroínas são feitos de múltiplas máscaras que vestimos para enfrentar o mundo. São contos de fada modernos. Vêm embalados em velocidade do som e em anos-luz. Queremos escapar para um lugar onde ninguém irá atrás de nós. Somos Blade Runners involuntários, vivendo num mundo que pertence cada vez menos a nós. E os mitos, mitologias, fantasias, histórias em quadrinhos, ficções científicas e, por que não dizer, a literatura, preenchem esse vazio existencial que é o dia a dia. Escolhemos heróis para encarar a vida. Eles nos dizem que vale a pena seguir, mesmo que seja por uma via estreita, a mais difícil, a menos ponderada. Bob Dylan fez isso, não a mim, mas a muitos dos seus fãs. Eu escolhi outros heróis. Talvez não tão descolados, tão engajados, tão hardcore como Dylan, mas eram meus heróis e heroínas, que continuam me fortalecendo, seja Capitu, em "Dom Casmurro", seja Lorelei, em "Um aprendizado", de Clarice Lispector. Ter heróis é importantíssimo. Eles entram no lugar dos deuses mitológicos, quando não forem estes que nos ajudam a continuar.
Viva o professor! 
15/10/2016 - 18h43


quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Lições de sábado 261

Não sou mais criança. Aprendi duramente como amadurecer. Nada foi dado de graça, por mais benesses que eu desfrutasse. Tudo teve um custo. Tudo teve um preço. Por mais que eu tentasse, algo parecia falhar. Perfeição dura a chegar. Aprendi a me aperfeiçoar aos poucos. Lentamente. Como quem ergue um edifício. Para, do alto, poder contemplar a planura. E, durante o caminho, tropecei, fui alvo de críticas e puxadas de tapete, de mentiras e traições, de inverdades e injúrias. Nem todos permaneceram comigo. Poucos conhecem os degraus da escada que subi. Mas quem viu de perto, sabe o que houve, sabe o que eu fiz e por quê. Quem não souber, não vale a pena explicar. Vai demorar muito tempo. Descobri que é melhor depurar-se do que se deixar poluir. Aos poucos, saber fazer melhor. É um longo treino, que leva a vida inteira. E, às vésperas dos sessenta anos, só fui superada por quem chegou lá antes de mim. Por não ser mais criança, aprendi o que deveria saber há muito e, ao mesmo tempo, não esqueci o que é ser criança. Eu nunca fui mais velha do que dezoito anos. Dentro de mim, guardo essa idade. Para que, mais tarde, eu me lembre de mim.

6/10/2016 - 00h34 

Para Hariklia Papapetrou, que lê todas as Lições de sábado e fica esperando por elas. Gratidão, amiga.

Foto de Fabio Giorgi: "7o. dia de chuva".