segunda-feira, 20 de julho de 2020

Lições de sábado 371

Há 50 anos, eu assistia a Armstrong descer na Lua e Buzz Aldrin espetar a bandeira americana. Não me lembrava que era domingo. Mas me lembro que foi à noite. Não me lembro de mais nenhuma viagem e houve outras seis, até a Apollo 17. O quase desastre total da Apollo 13 rendeu um bom filme, mas me lembro por alto do incidente em abril de 1970. Mas esta foto me marcou mais do que qualquer outra. Por quê? Porque ir à Lua só serve para olhar para nós mesmos. Cantei muito a música de Gilberto Gil, "Lunik 9". Sei a letra de cor até hoje. Quanto às controvérsias, se realmente foram ou não, eles não conseguiriam sustentar uma mentira por tanto tempo: 50 anos hoje. Eu estava lá vendo televisão, como fui ao lançamento de "Flicts" e conheci Ziraldo, porque "a Lua é Flicts!" Bela sacada do nosso cartunista favorito. "Para Titina, with love às pampas!", levada pela minha prima Regina Vater, na esquina de casa, no Posto 6. Havia uma livraria, onde hoje é uma farmácia. E foi ali que Ziraldo lançou "Flicts" com a cor da Lua.

20/07/2019

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Lições de sábado 370

A morte realmente não tem jeito. Queremos tanto entender a vida, mas essas doenças, acidentes, assassinatos são inexplicáveis. Porque a vida tem que acontecer em etapas, aqui e lá, antes, durante, depois, este é o questionamento que se faz desde Platão, que imaginava a vida como um reflexo imperfeito de alguma perfeição. "O que está em cima está embaixo". Se nascemos para nos aperfeiçoar, por que sair da vida sem saber para onde se vai, porque, por mais fé que se tenha, não sabemos nada. Se o próprio Cristo morreu como morreu para provar que existe vida eterna, mas que não podemos ver. Eu só sei que quem parte continua vivendo em nós. Uma parte deles fica. Meu pai, minha mãe, meus avós, minha amiga Ana Heloísa Páscoli, que, de alguma maneira, se comunicou comigo. Ela estava no meu pensamento, enquanto eu ia para o Caju, dizendo: "Não tem problema, pode vir", porque eu estava atrasada para o velório. Tantos escritores que já partiram que continuam em seus livros, em seus textos, em suas palavras, em seus poemas. Vendo assim, a morte não tem importância. Mas, nos afeiçoamos de tal forma à vida, que não sabemos o que virá, por mais que nos contem histórias de fantasmas ou espíritas. Eu tenho minha própria crença, apesar de tudo o que já aprendi. Somo todas as crenças para tentar entender o que uma só não explica. E vejo que ninguém sabe totalmente. Minha colega de colégio, Norma Fairbanks, da mesma turma da Ana Heloísa, acreditava que iria se recuperar. Que o tratamento iria curá-la, mas sua doença é inoperável. Enquanto isso, no mesmo hospital, outro amigo, que é como um pai para mim, Jorge Mauad, está com uma embolia no pulmão, ocasionada por uma queda e fratura do fêmur, cumulado com problema cardíaco. A família está inconsolável e eu também. Mas ambos são grandes almas. Dou a desculpa de que quem é melhor vai antes, já se aperfeiçoou, cumpriu a missão, embora não saibamos nada sobre isso, nem para nós mesmos. Este ano, Kirk Douglas puxou a fila, morrendo aos 103 anos, é claro, antes da entrega do Oscar, para poder receber uma homenagem especial na entrega das estatuetas. Timing perfeito. Spartacus sabia como sair de cena de forma espetacular, assim como viveu a vida. Assim saibamos nós, que somos a única espécie com amnésia. Não sabemos nada, e tudo temos que aprender do zero. O joão-de-barro não vai para a faculdade para aprender a construir sua casinha, mas a constrói assim mesmo. Ou seja, espécie sem amnésia. E ter memória (agora dá para entender Gurdjieff melhor) é fundamental para a evolução. "A evolução possível do homem", sim, possível, como disse seu discípulo Ouspensky, porque é necessário querê-la. Exige esforço. "Lembre-se de si mesmo". Assim teremos eternidade, porque somos apenas o que lembramos. E, para lembrar, é preciso despertar o cérebro de seu sono. Por isso, Gurdjieff dizia: "Lembre-se de si mesmo". 

8/02/2020 - 14h19 

"Honi soit qui mal y pense", lema da Ordem da Jarreteira, no Castelo de Windsor. 

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Lições de sábado 369

Um dia uma amiga me disse: "Um beijo não dado é um beijo perdido para sempre". E a partir desse dia eu passei a considerar muito importantes as chances que eu tinha de fazer algo que poderiam não ser repetir mais. Percebê-las como únicas. Deixar para depois nem sempre é a melhor opção. Há momentos em que devemos não agir, mas outros não se repetem. Hoje é um dia desses. Dois de fevereiro de 2020. Um dia capicua, com apenas dois números. Um capicua dentro de outro. 02 0220 20. E também dia de Iemanjá. E Groundhog Day, nos Estados Unidos e Canadá. Dias decisivos. E aniversário de James Joyce. Quem lembrava dessa? Sua editora, Sylvia Beach, sabia que ele, doido por números como era, não poderia receber a primeira edição de "Ulysses" senão nesse dia: 2/02/1922, quando completou 40 anos de idade. Um dia certo para o livro certo. Mas a mesma amiga mandou um recado para mim no dia do seu enterro: "Um beijo dado é um beijo guardado para sempre", enquanto eu atravessava o Cemitério do Caju em direção ao crematório. Assim ela me respondeu quando à aflição de eu não perder a oportunidade de nada. Aquilo que se faz, está feito. E o que não se fez, talvez nunca mais possa ser feito, por isso é preciso prestar atenção aos sinais, para saber quando devemos dizer sim ou não. Parece difícil? É pura falta de treino. Quando abrir mão de fazer algo, não se lamente. E se não puder fazê-lo contra sua vontade, também. O melhor é aceitar o que foi-lhe dado de presente, ou seja, a chance de fazer o que escolheu fazer, e dar certo. Se não der, paciência. Mas preste atenção aos sinais, para estar exatamente onde deve estar. 

2 de fevereiro de 2020 - 23h22


terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Lições de sábado 368

Hoje me chamaram de Teresa de Jesus, a Santa Teresa d'Ávila, porque eu ajudo muitas pessoas e parece leve o fardo que carrego. Esse é um verso num antigo poema meu, "Carrego um fardo como quem voa". Pelo menos, há aqueles que são gratos. Os que não são, gratidão não é seu forte. Há pessoas que ficam ressentidas quando não conseguem o que querem. E cospem no prato que comem. As Teresas têm destino de sofredoras, tanto que a madre era Teresa de Calcutá. Agimos com abnegação. Fazemos mais do que nos é pedido. Somos altruístas. E um detalhe que é confundido com egoísmo: fazemos tudo o que é preciso para alcançar nossos objetivos, mesmo que seja ajudar os outros. Eu não precisaria fazer nada do que faço e, no entanto, faço. Eu poderia abandonar tudo que estou fazendo, mas não abandono. Penso em desistir todos os dias, justamente por causa dos ingratos, e exatamente por causa deles, não desisto, senão eles venceriam.

28/01/2014 - 19h32






sábado, 28 de dezembro de 2019

Lições de sábado 367

Último sábado do ano, e eu tinha de dizer alguma coisa. A rainha Elizabeth II fez seu pronunciamento de Natal pela televisão como tem feito desde o ano em que eu nasci, em 1957. E escolheu como tema os pequenos passos que nos levam adiante, ao se recordar dos 50 anos da chegada do homem à lua, pelos pés de Neil Armstrong. Não são os grandes saltos, mas os pequenos passos que fazem a diferença, disse a rainha. Ainda nos espelhamos em exemplos. Precisamos de exemplos para seguir em frente. Sejam os nossos pais, tios, primos e irmãos mais velhos, ou atores de cinema, teatro, televisão, cantores, ou até um amigo, alguém que em quem nos vemos melhor. Os exemplos são muitos, pode ser a avó que já faleceu, o imperador que não temos mais, algum personagem histórico, um navegador, um revolucionário, um rei, um escritor, um poeta, um pintor ou escultor. Sempre escolhemos alguém em quem nos espelhar. Atrizes, escritoras, pintoras, escultoras, cantoras, compositoras, maestrinas. Guardamos em nós as faces que escolhemos para admirar. Na adolescência, eu colava imagens recortadas de revistas francesas na parede, às vezes, frases, paisagens, mas principalmente rostos. Todos os rostos que eu queria ter. Uma dessas frases dizia: "S'aimer c'est tout partager. Tout" (Amar é dividir tudo. Tudo.) Mas como tudo serve a um propósito, um dia arranquei todas as fotos da parede e nunca mais coloquei nenhuma imagem no meu quarto. Talvez eu já tivesse ganhado um rosto que fosse meu. Não precisava mais delas. Mas continuei admirando os personagens reais ou fictícios que conhecia, atenta à biografia de escritores como James Joyce e Drummond, atores como Charles Chaplin e Tônia Carrero, reis como George VI e Pedro, o Grande, rainhas como Vitória e Leopoldina, presidentes como Roosevelt e Prudente, princesas como Sissi e Isabel, e faraós como Akenaton e Nefertiti. Todos cabem em nosso universo interior, essa plêiade humana que carregamos em nós, tantas células herdadas de tempos antigos. Somos todos. Todos estão em nós. "Partager tout". Dividimos tudo com todos. Mesmo que a princípio pareça que não. Agradecer aos inimigos a nossa resistência. Agradecer aos amigos a sua compreensão. Vivemos o hoje como nunca existiu. Todas as vidas em nós, e nós, as sementes do futuro.

28/12/2019 - 11h14 

Tônia Carrero, em "Natal na praça" (1957), foto de Adolfo Celi 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Lições de sábado 366


Meu avô, Trajano de Barros Camargo nasceu em Limeira, em 15 de março de 1890. Seus pais era Flamínio Ferreira de Camargo e Cândida Virgínia de Barros. Foi o sexto de dez filhos e herdou do pai a determinação e a capacidade de se antecipar ao seu tempo. Estudou como interno na Escola Americana, em São Paulo, hoje Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde se formou em Engenharia Civil, aos 19 anos, em 1909. No início de 1910, ingressou na University of Wisconsin na cidade de Madison, nos EUA, para cursar pós-graduação em Mecânica Industrial. Nessa universidade, fez parte da Orquestra Sinfônica como flautista e foi o responsável pela primeira execução do Hino Nacional Brasileiro nos Estados Unidos.
Em novembro de 1910, devido ao falecimento de seu pai, o Coronel Flamínio, foi forçado a retornar ao Brasil sem concluir a pós-graduação. A partir de 1911, dedicou-se ao comércio e indústria de madeira num povoado chamado Faxina de Itapeva, SP, hoje Itapeva, além de lecionar Matemática na Escola Agrícola Luiz de Queiroz, em Piracicaba.
Em janeiro de 1914, juntamente com dois sócios, fundou a empresa Souza Penteado & Cia., em Piracicaba, uma indústria de máquinas de beneficiamento de café, Abelardo Aguiar de Souza e Antonio Augusto de Barros Penteado, seu cunhado. Casou-se, em fevereiro desse mesmo ano, com Maria Thereza da Silveira Mello. Em 1917, com a saída de Abelardo Aguiar, a indústria, já denominada B. Penteado & Cia., foi transferida para Limeira.
Com a transferência, Trajano Camargo regressou a Limeira com a esposa e três filhos, vindo a residir, com a mãe viúva, na casa da chácara que fora construída pelo seu pai (que foi sede da Secretaria de Educação de Limeira, ao lado do Zoológico Municipal). Ao atirar um grão de café contra a parede com um bodoque, Trajano percebeu que isso provocava a liberação da casca. Assim, concebeu o primeiro descascador de café por impacto do Brasil. Trajano de Barros Camargo descobre um método para separar os grãos da casca do café que revolucionaria a indústria e igualmente o beneficiamento cafeeiro.
Nessa época, desenvolve a primeira máquina compacta para descascar café, através do processo de choque, com peneiras e ar para soprar as cascas, separando-as do café descascado. Até então, eram necessárias cinco máquinas para fazer o mesmo serviço. A indústria passou a se desenvolver mais ainda depois que ganhou a Medalha de Ouro na Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil, em 1922. Para Limeira, deu uma das indústrias mais importantes do país na época, a Machina São Paulo, capaz de reunir, já no início do século, um quadro de 500 funcionários, em 30 mil metros quadrados.
Faleceu de câncer, em 8 de abril de 1930, deixando a viúva e sete filhos. Seu legado para Limeira é incomensurável. Nesta foto, de 1925, cinco anos antes do seu falecimento, o vemos com quatro de seus filhos, Nelson, Flávio, Trajaninho e Prudente, e ao lado da mãe, D. Cândida. Encontrei a foto em outro envelope, separada das que havia encontrado anteriormente numa caixa que pertencia a Tio Trajaninho. Uma grande família com uma grande história que precisamos contar entre nós.

18/12/2018


sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Lições de sábado 365

Ninguém esquece a primeira aula, a primeira vez que fala de um assunto, que vê uma pessoa, que lê um livro. A primeira vez é sempre única. As outras que se sucedem apagam-se como um quadro negro. Não lembramos de mais nada, senão daquele primeiro instante fulgurante em que uma palavra foi pronunciada, ou vimos alguém que nunca mais esquecemos. 

Mas o que faz com que toda vez seja a primeira? E não esqueçamos nem as vezes seguintes, mesmo que sejam (quase) as mesmas, como acordar todos os dias e tomar o café da manhã? O que faz toda vez ser única? 

A diferença é estar desperto. Veja um gato, por exemplo. Para ele, é sempre a primeira vez. Ele olha com ar curioso qualquer coisa que lhe mostremos. Um gato está sempre pronto a saltar, ou a reagir imediatamente. Nada se repete para ele, e está constantemente sendo surpreendido. Mas nós, não. Nós dormimos mesmo de olhos abertos. O cérebro desliga se não for provocado. Entramos no piloto-automático das sensações diárias. E só "despertamos" quando algo inesperado acontece: a morte de alguém, um acidente, uma tragédia. Temos que ser constantemente despertados para nos lembrarmos das coisas, porque as pequenas coisas diárias passam despercebidas. 

Mas se estamos despertos, tudo nos surpreende. Como disse Gullar sobre o poeta, somos capazes de nos espantar. E, se tudo é uma novidade, mesmo a coisa mais conhecida, então, sim, estamos despertos, como o gato diante da bola que ele não se cansa de empurrar. 

Todo dia é novo. Mas se não estivermos despertos, não lembraremos do dia, pois só somos capazes de nos lembrar quando estamos de fato acordados. Para isso temos que lembrar constantemente de nós mesmos. Onde estou, o que eu disse, o que está ao meu lado, atrás de mim, à minha volta? Essa atenção despertará o cérebro de seu sono, e a memória será acionada. Então poderemos nos lembrar de tudo, como num filme. 

A falta de memória é falta de uso. Falta de estar desperto. Se não provocamos o cérebro, ele dorme. Se não o usamos, ele cai no mais profundo sono, do qual só vai despertar ao som do cuco (para isso foram inventados), e adormecer de novo em seguida. 

Quando prometer algo a alguém e só lembrar depois que lhe for perguntado, é porque seu cérebro dormiu (lamento, mas é isso que acontece). Meu avô dizia que "esquecimento é pouco caso". Ele era bem severo ao dizer isso, mas na verdade a mente só "desligou" e por isso "esqueceu". 

Para manter a mente alerta é necessário exercitá-la, fazer com que preste atenção em tudo, não apenas ficar lá de olhos abertos, mas ausente. Já viu um peixe dormindo? Ele dorme com os olhos abertos, porque não tem pálpebras. E fica ali, se movendo minimamente, paradinho no aquário, de olhos esbugalhados, mas dormindo. Nosso cérebro é igual. Dorme de olhos abertos. Para lembrar, é preciso despertá-lo. 

Acorde! E lembre de cada minuto vivido. Vale muito mais a pena. 

29/11/2019 - 10h36

Foto de Fabio Giorgi