sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Lições de sábado 160

Quando um problema de matemática vira uma questão de educação: uma atendente recebe um pedido de pizza com dois sabores, mas não informa que só pode ser meio a meio. Pedem 2/3 marguerita e 1/3 quatro queijos. Ela não entende que isso não é 1/2 e traz a pizza metade de cada sabor. Ao receber a reclamação de que eles não haviam sido atendidos corretamente, ela insiste em dizer que a pizza só pode ter dois sabores meio a meio. Mas como não entendeu a fração, não pôde explicar o erro e se aborreceu. Eles queriam dois sabores, mas não naquela proporção. Tem vezes que a educação é uma questão de proporção. Os fregueses também reclamaram e chamaram o gerente. Ao se aborrecer, a atendente virou as costas e abandonou a mesa, ao que o marido perguntou: "Você sabe o que é 2/3?" Bate-boca inútil, a criança de quatro anos presenciou os pais brigarem por algo que pediram errado e a atendente humilhada, porque não sabia (ou esqueceu) a matemática.

18/10/2014 - 1h18




sábado, 11 de outubro de 2014

Lições de sábado 159

O poeta se cala enquanto espera o novo poema. Os poemas se fazem na ausência de pensamento, e a surpresa faz parte de sua urdidura. O poema traz à tona emoções que estavam escondidas, não o que o poeta disse, mas o que ele fez sentir. O poeta não sabe quando escreverá seu novo poema. E enquanto espera, olha para todas as coisas como se não as conhecesse. O estranhamento faz parte da descoberta do poema. Porque ao tentar explicar o que vê e sente, nasce o poema. Não o que ele pensou escrever, mas o que o poema diz. Tudo é metáfora, como disse Neruda. Há metafísica bastante em não pensar em nada, disse Pessoa. O pensamento constrói uma forma em algum lugar. E o nada não é nada e sim o que não vemos. 

11/10/2014 - 23h19



Lições de sábado 158

Fui a um lançamento da editora na sexta passada, quando minha mãe foi hospitalizada, e parei na frente da estante de guias de turismo, e vi um guia de Paris, me lembrei de mamãe e pensei imediatamente: “Não vou ter mais para quem comprar esses livros”. Tudo que eu achava interessante comprava para ela, fosse um livro sobre história do Brasil, sobre Santos-Dumont, ou Monteiro Lobato. Tudo que eu sabia que interessava a ela, desde livros de receitas e orações, histórias de santos ou dos papas, tudo que pudesse entretê-la. E como todos os assuntos a interessavam, ela poderia ler sobre qualquer coisa. Ela fazia coleção de dicionários. Sobre todos os assuntos. Desde tupi a japonês. De ciência mecânica à astrologia. Tudo era motivo de estudo e pesquisa espontânea. Era a rainha dos dicionários e irmã das enciclopédias. Tudo que não sabíamos, ela dizia para consultar o Aurélio ou a Enciclopédia Britânica, o que hoje seria resolvido com uma olhada no Google. Mas não havia internet e os almoços eram divididos com livros sobre a mesa. A refeição era usada para partilhar as últimas descobertas ou dividir os últimos conhecimentos. Era uma mania da família mostrar saber algo que ninguém sabia. E assombrar a todos. Em contrapartida, éramos loucos para aprender. Isso foi um hábito que durou muitos anos até meu irmão ir para a Europa morar com meu pai. Mesmo assim minha mãe não encerrou suas pesquisas. Acabei de achar numa gaveta recortes de jornal de 2000 sobre tudo que é assunto que pudesse interessar a alguém. Se ela sabia que um amigo estava precisando de algo, logo ela recortava um anúncio de jornal para ele. Encontrei poemas que ela escreveu até julho, quando ela deixou de andar. A letra já estava indecifrável, mas ela achava que podia escrever haicais. Eram mais curtos e rápidos, assim não teria de escrever muito, e a caligrafia frágil encheu uma página de haicais rabiscados. Minha mãe era uma surpresa, impossível legado, pessoa cheia de altos e baixos e extensas planícies. Amorosa sem floreios. Direta e precisa. Se mais não fez, não foi necessário. Teve o tempo para urdir sua semeadura. E deixar em muitas pessoas a sua marca.

9/10/2014 - 9h26


terça-feira, 30 de setembro de 2014

Lições de sábado 157

O amor dá muito trabalho, principalmente as variantes do amor, ciúme, egoísmo, prepotência, ambição, todas ações do ego fingindo que ama. O ego não ama, mas pensa que ama, aí começam os problemas. Quando é amor, não há problema algum.


30/09/2014 - 19h39 


Lições de sábado 156

Traduzir não é trair. É contrair, assimilar o que de mais profundo existe na alma daquele autor e tentar dizer o mesmo em sua própria língua para que os seus entendam, não o que ele disse, mas o que quis dizer. Dizer como se falasse a sua língua.

30/09/2014 - 19h36 



Lições de sábado 155

O verão misturou-se ao inverno e salpicou rajadas de outono para começar uma nova primavera. Os verbos contraíram o cenho e disseram que não tinham nada a declarar. Por que o tempo se confunde e acelera nos melhores dos nossos dias? Não existem coincidências, nem regras para nos manter vivos por mais tempo, mas todos os dias são importantes para se fazer o melhor, sempre o melhor. Não desperdicemos minutos com bobagens. Edifiquemo-nos. Se não temos um mapa de estrelas, podemos usar um bocado de boas ideias. Sempre uma leva à outra, e só o que for verdadeiro permanece.

30/092014 - 19h28


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Lições de sábado 154

Compor um poema-matriz como outro poema-matriz, falar de uma experiência ancestral como a experiência de todos os homens, o surreal, o fantástico, saltar de uma dimensão a outra, subir uma oitava acima, elevar-se, transcender. Há dias em que tudo isso acontece ao mesmo tempo, lua nova, primavera, hoje mais do que ontem e menos que amanhã, hoje amo-te mais do que a soma de todos os dias, em progressão geométrica, potencializo ao máximo as partículas que cabem em mim e transbordam.

25/09/2014 - 1h