Deixamos para depois as primeiras necessidades. Aprendemos a procrastinar. Um desejo adiado é um desejo irrealizado. "Um beijo não dado é um beijo perdido para sempre", disse-me uma amiga quando eu tinha 13 anos de idade, e nunca mais esqueci disso. Pautei a partir dessa frase todas as decisões que tomei na vida. Eu não deixava para depois o que poderia fazer agora. Não fazer algo poderia adiar para sempre o que eu desejava fazer. Então, por que esperar? Saber tomar decisões na hora certa é fundamental para acertar seu futuro. Dúvidas e decisões adiadas suspendem os efeitos das nossas ações. Não agir é o melhor modo de não ser, exceto quando for uma escolha. Também é preciso saber quando não agir. Trinta anos depois, minha amiga morreu, mas no dia do seu enterro, um pensamento me assaltou enquanto eu atravessa o cemitério até o crematório: "Um beijo dado é um beijo guardado para sempre". Era a resposta que ela guardara para mim mesmo atrasada para o velório e a cerimônia de cremação no Caju. Aprendi com ela a não adiar, a não procrastinar, a não deixar para depois o que poderia fazer agora, e somente adiar o que fosse impossível fazer hoje. Aprendi com outra amiga a não me esforçar desnecessariamente. Todo esforço induz ao erro. "Suavemente, sem esforço", ela dizia. Então aprendi a esperar o momento de agir, quando não houvesse esforço. Aquilo que vinha naturalmente era o sinal do acerto. Buscar o equilíbrio entre agir e não agir é uma ciência pouco estudada. E saber ler os sinais do que está à nossa frente. Aceitar o imponderável e compreender o imprescindível. Seguir a intuição. Decifrar o que nos é apresentado como segredo. Os gênios aprendem a decodificar o presente. Nele está tudo que precisamos saber trazido do passado, e que nos mostram, por meio de símbolos, o que precisamos aprender.
sábado, 7 de março de 2015
sábado, 21 de fevereiro de 2015
Lições de sábado 194
Hoje foi um dia de perdão. Não apenas o perdão que buscamos dar, mas o que queríamos receber. O perdão é só um gesto que tem o condão de transformar o sentimento que estava perdido, de retomar a direção que deveríamos ter seguido e que perdemos no curso dos dias. Basta que um perdoe para que todos perdoem e possam ser perdoados, reaproximando os que se afastaram por essa negligência, por essa falta de perdão. O perdão absolve, dissolve os nós da carne e restabelece o diálogo. O que julgávamos ter perdido é devolvido intacto, como se o tempo tivesse suspendido todos os efeitos da negação. Se hoje perdoei e fui perdoada por quem nem esperava ouvir esse pedido, abranda e aproxima as distâncias que nos impusemos. Tudo que foi dito por erro ou pelo ego. Tudo que foi pensado injustamente. E nos vemos novamente no ponto de partida. Recomeçar é um ponto de partida. Mesmo que nada se possa fazer para mudar o que aconteceu, pode-se mudar o que será feito. Novas palavras serão ditas para remediar o espaço em branco, o vácuo, a cisma, o abismo. E não há outro conforto senão ver novamente próximas as pessoas que pensamos haver perdido. Retomamos a caminhada com a certeza de que o mesmo erro não será repetido.
22/02/2015 - 00h50
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
Lições de sábado 193
"Do amor, não se faz biópsia, só se faz autópsia", disse-me um amigo citando outro. Várias vezes recorri a essa máxima, toda vez que tentava entender o momento que estava vivendo de certo relacionamento. Quando somos capazes de dissecar uma pessoa, ela já morreu. E, por algum tempo, mantemos o luto. E, em outro, mantemos distância. Tentamos entender racionalmente o que não se explica nem pela emoção. A emoção nos trai a todo momento, porque somente guardamos o que foi bom. E temos de nos lembrar o que não deu certo. O que nos tirou da rota e nos desviou do caminho. Que escolhas fizemos para nos proteger. Há homens impossíveis de amar. Por serem incapazes de demonstrar o amor que sentem. E expressam exatamente o contrário. Colocam a raiva e os ressentimentos em primeiro lugar. Não podemos tentar analisar tudo, pois não é uma sessão de terapia. Tentamos, parcialmente, compreender o que falhou, o que faltou, o que nos fez mudar de direção. Um encontro é carregado de expectativas, que se desenrolam suavemente e, por vezes, encontram obstáculos, surgem mal entendidos, criam-se problemas que não prevemos. Nunca prevemos problemas. Sempre temos de enfrentá-los a frio. Sem preparação. E não podemos desfazer as escolhas, nem retirar o que dissemos e o que ouvimos. Se um amor não deu certo, acertamos quando quisemos amar. E quando nos acreditamos amados. E, depois, quando não resta nem mais a ternura que nos aproximou, passamos a desfiar os enganos, os atos inesperados, as acusações esdrúxulas. Partimos. E, nessa separação, nos distanciamos rapidamente do ser que amamos, para passamos a vê-lo como miragem. Como ilusão de um dia ter amado alguém impossível de amar. Por se negar a receber esse amor como o oferecemos. Amor não exige fórmulas. Apenas brandura, porque ninguém é obrigado a ser quem não é, nem a obedecer ordens de um parceiro tirano. Na necropsia, retiramos o coração e o olhamos de perto. O que ele não possui que não conseguimos entender? Nem aceitar? E na mistura estranha de amor e ódio, aquecidos pela falta do ser que queríamos amar, vemo-nos inteiros, a acalentar um tempo que pareceu um sonho e, como de todo sonho, despertamos.
16/02/2015 - 22h26
sábado, 14 de fevereiro de 2015
Lições de sábado 192
Tudo que fazemos está interligado de algum modo. Seja porque pensamos ao mesmo tempo nas mesmas coisas, ou dizemos coisas parecidas, ou escrevemos poemas que "conversam" entre si. As coincidências querem dizer que seguimos uma linha do tempo, um fio condutor, uma sequência que nos coloca na trajetória de outras pessoas. Os "acasos objetivos" de Breton explicam por que estamos num lugar e não em outro para encontrar quem devemos conhecer. E ao mesmo tempo nos livrar daquilo que não devemos padecer. Ninguém tem mais sorte do que outros. Todos estão no mesmo plano de igualdade, embora não seja aparente. Por isso a inveja é uma perda de tempo. Cada um está onde deve estar, e não em outro lugar onde desejaria. A escolha faz parte disso, mesmo as inconscientes. Temos uma missão a cumprir no meio desses acasos, coincidências e encontros gratuitos. Nada acontece por acaso. E mesmo os acasos objetivos têm um motivo. E não devemos lamentar o que não aconteceu. Pode estar sendo protegido de algo pior. Quando algo não dá certo, não devemos lastimar. Melhor antes que depois. Depois pode ser muito mais complicado desfazer. Recomeçar do zero, às vezes, é a melhor opção.
14/02/2015 - 17h58
domingo, 8 de fevereiro de 2015
Lições de sábado 191
Na vida, temos muitos amores. Ainda bem que podemos amar tantas pessoas. Encontrá-las é o que basta para começar a amá-las. Algumas surgem de surpresa, sem que esperemos conhecê-las. Outras já estão ali, sem que percebamos. Mas toda vez que conhecemos alguém importante, há um sinal para que prestemos atenção. Às vezes, é uma palavra, outras, é um gesto. Mas não deixamos de amá-las se não as vemos, porque continuam presentes em nós, como se as víssemos todos os dias. Algumas não vemos por muito tempo. E ao reencontrá-las é como se tivéssemos nos visto na véspera. E há outras em que nos vemos todos os dias por algum tempo. Depois elas se vão. Mas aquele período ficará gravado como um capítulo em nossas vidas. Inapagável. Há os que vêm e ficam, há os que vêm e se vão. Nada dura para sempre. Mas os amigos que ficam por mais tempo são os que temos o prazer de desfrutar de modo permanente. "Nada é mais extremo que a permanência", escrevi num poema. E nada se compara ao tempo que passamos com nosso amigo. Sobre isso já tinha lido em "O Profeta", de Khalil Gibran, sobre a Amizade. Sempre lembro das imagens que invocou para explicar a amizade. "Quando vos separais de vosso amigo, não vos aflijais. Pois o que vós amais nele pode tornar-se mais claro na sua ausência, como para o alpinista a montanha aparece mais clara, quando vista da planície". Amigos vêm e vão. Podemos conhecer mais pessoas, fazer mais amigos, mas aqueles que temos mais perto de nós nunca se afastarão.
domingo, 25 de janeiro de 2015
Lições de sábado 190
Meia-noite com fogos? O que dá em Copacabana de vez em quando? Não sabemos mais nem onde moramos. Na rua, crianças gritam como se estivessem sendo esganadas, homens e mulheres discutem aos sopapos, correm atrás de ladrões, os ônibus fazem barulho, os carros de bombeiros, ambulâncias, polícia, todos com sirenes ligadas. Às vezes, me pergunto o que aconteceu com o silêncio. Onde moro há risadas à noite toda, quando não música o dia inteiro. Os vizinhos discutem, quebram pratos e, de vez em quando, uma água escorre sem parar, ou um motor funciona a noite inteira. Há cães que ladram e um papagaio que grita qualquer coisa ininteligível. Os pneus passam rodando pelo asfalto, enquanto os rojões continuam a estourar. Ligo a televisão e não há nada para assistir. "Conteúdo adulto"? Quem, em sã consciência, quer isso? Alguém toca a campainha desesperadamente. E o caminhão de lixo passa novamente dando a volta no quarteirão (o lixo estava tão desmantelado que nem sei como conseguiriam colocá-lo na caçamba). O ronco do motor do ônibus sublinha minha última frase e a campainha ainda toca pela área interna do prédio. Buzinas disparam, e os gritos vêm de toda parte, quando não a sinfonia de apartamentos em reforma. Conheço este lugar há mais de 50 anos. E, às vezes, não o reconheço.
24/01/2015 - 00h20
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
Lições de sábado 189
Existe uma vida imaginada em que eu sou personagem, e me vejo em lugares onde estive e não voltei, que teria outro fundo, outra paisagem como cenário, do que esta que vivi, talvez uma vida sonhada, ou inventada, com menos atribulações do que as que restaram. Tantas outras foram resolvidas, e a vida é assim, sem sonhos, só esforços para atingir objetivos. Ninguém tem a vida ideal. Pode ser boa, mas algo fica faltando. Lembrei de uma xícara, na casa de uma tia-avó que nunca mais vi, biscoitos num prato delicado, uma luz pela janela com cortinas brancas que nunca mais verei. E mesmo assim, sempre volto àquela cozinha, onde o chá e os biscoitos foram servidos, com uma saudade de algo que não era meu. O que fiz e construí ainda está em andaimes. Uma obra que não termina. Fazer e refazer continuamente, mas nunca a janela com cortinas. A vida imaginada só existe para mim. A vida poderia ter sido outra, mas nunca com os mesmos resultados. Tantas coisas eu teria feito diferente, se soubesse. Pensei até em abrir mão do que fiz para desfazer o que não deveria ter feito. Desfazer tudo. Voltar a um momento em que os danos ainda eram menores ou evitáveis. Mas só tenho esta vida para falar do que vivi. Ao contrário do que dizem, faria tudo diferente. Porque não queremos repetir os mesmos erros - temos de saber evitá-los. Seguir onde tiver de ir, mesmo que não possa prever o fim, ou os caminhos. Por isso, como diz Cecília, é preciso reinventar-se.
REINVENÇÃO
A vida só é possível reinventada.
Anda o sol pelas campinas e passeia a mão dourada pelas águas, pelas folhas. . .
Ah! Tudo bolhas que vêm de fundas piscinas de ilusionismo... – mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.
Vem a lua, vem, retira as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcanço...
Só - no tempo equilibrada, desprendo-me do balanço que além do tempo me leva.
Só - na trevas fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.
Cecília Meireles
21/01/2015 - 12h38
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