quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Lições de sábado 338

Somos apenas um prolongamento de nós mesmos ao longo do tempo. O que fomos em criança perdura em nós como uma música ouvida ao longe. O que vivemos na infância, adolescência e juventude, perpetua-se como um hino, um coro de anjos, uma lembrança, uma saudade, às vezes, uma dor, um incômodo, um pensamento que passa de raspão que tentamos guardar ou afastar. Tudo isso se dissolve na idade adulta. Os compromissos, a família, os filhos, os amigos, as obrigações, as dívidas, as perdas, os ganhos, os acontecimentos, as realizações, os fracassos, os desentendimentos, as invejas, as inimizades, as chances, as oportunidades perdidas, os erros, os acertos, as escolhas, as ações, as omissões, as palavras, os silêncios, tudo colabora para que a vida adulta se torne um tédio ou um pesadelo, dividindo espaço com as alegrias e as boas surpresas. Lutamos, ou melhor, acreditamos lutar contra adversidades, azares, mentiras, calúnias, injúrias, insultos, difamações de todo tipo, por pessoas que nem deveriam estar ali, mas estão. "Traga seus amigos perto e seus inimigos mais perto ainda". A distância dos obstáculos não os elimina, mas não teremos de superá-los. Seja mais brando consigo mesmo. Ninguém nasceu para a perfeição, mas para compreender seus defeitos. E, na imutabilidade do ser, mudamos para nos tornarmos nós mesmos. 

8/02/2018 - 9h55  


quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Lições de sábado 337

Era outubro de 1966. Eu tinha nove anos e estudava no Chapeuzinho Vermelho, em Ipanema, quando A Banda ganhou. Estávamos preparando a festa de final de ano da turma, quando a professora de música, Tia Gelre, veio correndo pra dizer que A Banda tinha ganhado o festival na noite anterior. Decidiu-se, então, que iríamos homenagear A Banda. E cada criança iria representar um personagem. O homem velho, o faroleiro, a moça feia, a namorada. E eu fui escolhida para ser a Lua. Então, de repente, A Banda passou a representar para mim algo que eu não esperava. Eu era a Lua da Banda. Minha mãe mandou fazer um vestido de organdi amarelo com florzinhas para combinar com a personagem. E na hora em que se falava que a "Lua cheia que vivia escondida surgiu", eu me levantava com uma imensa lua de cartolina pintada de amarelo. Ano passado, me pediram para fazer o poema e senti que era isso que eu tinha de contar. Mas só que de um jeito poético. Foi o que saiu.

QUANDO A BANDA PASSOU
para Alice, de aniversário

Quando A Banda ganhou,
o tempo parou
e parou todo mundo pra ver:
quem estava à toa
quem namorava
quem sofria
ou contava as estrelas.
Nem a moça nem a rosa
nem ninguém se sentiu triste
e a meninada continuou a brincar.
O cansaço do velho passou,
a moça feia sentiu-se bela
feito Carolina na janela.
O homem sério sorriu,
o faroleiro calou
e a marcha alegre enfeitou toda a cidade.
Que desencanto doce lembrar
que A Banda passou.
Mas eu era menina
e não sabia que eu era
a lua.

22/07/2003 – 20h00
In “Chico Buarque do Brasil”, Ed. Garamond, 2004


sábado, 20 de janeiro de 2018

Lições de sábado 336

Abri um livro de Joseph Conrad (1857-1924), "Nostromo", e encontro uma citação de Shakespeare antes da folha de rosto: "So foul a sky clears not without a storm", que quer dizer "Um céu tão tormentoso só clareia após uma tempestade". Essa citação vem da peça "Rei João", Ato 4, Cena II, dita pelo rei a um mensageiro que lhe traz más notícias. A relação com o livro está ligada à política, guerras civis e intervenção estrangeira. O romance é marítimo e a edição é de 1947, com primeira impressão em 1904. Em capa dura, com a assinatura do autor impressa nas capas internas, mostra ser uma edição especial. A edição inglesa é de J.M. Dent and Sons Ltd. e tem um subtítulo, "A Tale of the Seaboard" ("Um conto marítimo"). Shakespeare influenciou muitos autores ao longo desses 400 anos após sua morte, com poemas e peças que se repetem sempre sob uma nova luz. "Ricardo III" corresponde aos ditadores que querem tomar o poder a qualquer custo. "Romeu e Julieta" veio de um poema que Shakespeare aperfeiçoou e transformou na sua melhor peça sobre o amor e o ódio. Pequenas referências literárias nos conduzem à nossa vivência diária e transpomos os limites entre o real e o imaginário. A citação usada por Conrad é um mistério ligado ao livro estudado por críticos. A discussão é: a que guerra Conrad se refere? Irving Howe diz que, em "Politics and the Novel" (1957) sobre "Nostromo", que "o progresso veio do caos, mas é um tipo de progresso que leva de volta ao caos".

20/01/2015


terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Lições de sábado 335

Quando lhe disserem que algo é impossível, e você sabe que não é, e se põe a fazer, saiba que, se der certo, é porque você tinha razão e, se não der, é porque não era para ser. Muitas coisas que fazemos são destinadas ao fracasso, porque simplesmente não se aplicam. Outras, essas que são bem sucedidas, só acontecem por um motivo: eram para acontecer, apesar de todos os prognósticos em contrário. Há coisas que ocorrem mesmo que nada façamos para isso. E outras que só acontecem, porque nos mobilizamos para fazê-las. É a relação espaço-tempo que determinam os acasos objetivos que levam à sucessão de eventos para que algo ocorra. Eu não estaria aqui se não tivesse de estar, e outros não estariam onde estão se não tivessem alguma função - o acaso é regido por leis próprias e inatingíveis. Então, antes de se perguntar "por quê?", pergunte-se "para quê?". Para que serve determinada coisa (ou como dizia a cantora francesa Françoise Hardy, "À quoi ça sert?") é mais importante de por que determinado fato ocorre - ocorre simplesmente para que algo se faça, aconteça e se realize, e isso não tem nada a ver com a nossa vontade - apenas é. 

9/01/2018 - 20h47




Lições de sábado 334

Acho incrível como um livro pode nos acompanhar a vida inteira, desde a mais tenra idade, sem se perder. Há outros que se perderam, e que nunca esqueço e que penso que um dia vou reencontrar. Há livros que vivem se perdendo de mim, mas que sei que estão em algum lugar, reencontro e perco de novo, sem nunca conseguir ler. Há livros que não querem ser lidos, simplesmente isso. E outros que você nunca esquece, mesmo sem ter lido de novo. E há livros que quando relemos descobrimos coisas que não lembrávamos. Livros são como pessoas, alguns inesquecíveis.

9/01/2018 - 12h34


Lições de sábado 333

Saiba, precisamos de ontens e hojes, como precisamos de amanhãs. Precisamos de agoras e de momentos, de instantes e segundos, precisamos de horas e dias, como precisamos de meses e anos, mas nunca precisamos tanto de pessoas, essas que fazem os dias, meses, anos, momentos, ontens, hojes e amanhãs tão importantes. Precisamos de nós. Só nós vivemos como se não tivesse amanhã. Feliz ano novo. Feliz 2018.
30/12/2017 - 17h09



quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Lições de sábado 332

A vida é um trânsito astrológico. Por mais que acreditemos em questões permanentes, elas sempre mudam, para melhor ou pior, buscando um equilíbrio. Um erro abre a possibilidade de acerto, uma crise traz uma conciliação, uma doença pode trazer uma iluminação. Mudanças são sempre difíceis, dolorosas e longas, mas provocam resultados positivos. Ao consultar os trânsitos astrológicos pelos quais passamos, percebo que tudo vai e volta ao mesmo ponto, criando novas chances, renascimentos, reconstruções, ebulições, pacificações, alternâncias ou estabilidade. Nunca sabemos (a não ser que consultemos o mapa astral diariamente) quando algo pode acontecer, e mesmo que façamos previsões, não saberemos exatamente o que acontecerá até que aconteça. Saberemos "o quê", mas não "como". Saberemos "quando", mas não "quem". Quando precisarmos de uma previsão, olhemos as estrelas, enquanto a Terra gira e os cometas  cortam o universo, imantando tudo com sua força, a que chamamos destino.

27/12/2017 - 13h32