domingo, 1 de abril de 2018

Lições de sábado 347

A mentira é contumaz. Quanto mais ela avança, mais se torna ousada. Nada teme, mesmo quando pega em flagrante. O mentiroso não se esconde. Só disfarça. Sempre terá a audácia de voltar e manter a mentira. O mentiroso não se arrepende das mentiras que contou. Segue incólume, porque sempre terá quem acredite. Até tem um dia só pra mentira (que um dia foi verdade).

1/04/2014


Lições de sábado 346

Toda vez que entro numa livraria, ligo um radar, como se estivesse pronta para ver algo que nunca esperei encontrar. Só que não é consciente. Mas como já aconteceu várias vezes comigo, eu sei que basta entrar numa livraria para esse fenômeno se repetir. Sempre puxo um livro que nem imaginava existir. Estranha capacidade dos livros de nos chamarem de onde estão, imóveis em sua estante, como se falassem conosco por telepatia. "Venha, venha", eles dizem, mas num tom tão imperceptível, que não prestamos atenção no que estamos ouvindo, só quando já o temos na mão é que entendemos a mensagem. Livros têm poderes que nem suspeitamos. Carregam histórias de vidas. Carregam mensagens, segredos, revelações e mistérios. Um livro não é vencido pelo tempo. Pode levar uma eternidade, mas um dia será lido. E não é preciso ler todos os livros do mundo (nem aquela lista dos 100 melhores da BBC) para dizer que leu - eles só serão lidos se tiverem utilidade. Se forem inúteis, nunca serão lidos - e sim outros muito mais úteis para nós. Os livros que não li, eu não precisei ler, já que nunca sentiram minha falta. O livro que precisei atirou-se em mim. 
1/04/2018 - 10h40


sábado, 31 de março de 2018

Lições de sábado 345

Eu nunca confundi histórias de livros, mas já confundi cenas de filmes, pensando que um personagem estava num filme que na verdade era outro. Como também já escrevi três livros ao mesmo tempo e sabia em que livro entravam os poemas. Como se houvesse escaninhos na minha mente e ia escrevendo paralelamente cada livro, e terminei os três ao mesmo tempo. Quando acabei de escrever, pensando estar satisfeita, escrevi um quarto livro, numa tarde, no dia seguinte, 22 poemas em três horas e meia, inspirados em "The Waste Land", de T. S. Eliot. E era Bloomsday, 16 de junho de 1997. Inesquecível.

31/03/2018 - 11h10


quinta-feira, 29 de março de 2018

Lições de sábado 344

Eu tinha seis anos e meio de idade em março de 1964, e assisti, junto com meus pais, o desenrolar dos acontecimentos que se precipitaram no 1o. de abril, com o exílio de Jango e a saída de todos os políticos do cenário brasileiro de então. Sobrevieram 20 anos de ditadura militar, que só se desfez com a Abertura em 1984, quando retomamos o governo civil no Brasil. O país sempre viveu entre golpes, tendo começado sua República com uma quartelada, promovida por um ciumento Deodoro. Depois foi a Revolução de 30, o Estado Novo de 37, a renúncia de Getúlio em 45, a eleição em 50 e o suicídio em 54. Os anos que se seguiram deslizaram entre o ufanismo e a galhofa, mas foram os anos dos 50 anos em 5. Nasci no governo JK, mas logo depois Jânio Quadros tentava outro golpe que não deu certo, com uma carta de renúncia que não deveria ter sido usada. Como um bilhete de suicídio que não deveria ter sido lido. Saltamos para os anos 90, quando Collor traiu seus eleitores descontando uma nota promissória alta. Caiu em dois anos de governo. Seu oponente, Lula, usava caneta BiC e não a Montblanc de Collor, mas foi mais longe em sua ambição política. O que vemos agora é o desmantelar das estratégias usadas para ascender ao poder e perpetuar-se como líder entre as massas. Um bufão em causa própria. Dilma nem é protagonista. É atriz coadjuvante de um circo armado em Brasília. Vejo os deputados na Comissão Especial de Impeachment se debaterem por "questões de ordem", falando um português acidentado. O desembarque do PMDB me lembra o Dia D, o desembarque na Normandia, quando Hitler começou a perder a Segunda Guerra. Não queremos golpe, mas o Brasil vive de golpes, contra o bom senso, contra a economia, contra os cidadãos. Não é preciso ser político para entender que algo vai muito mal. E assistir a essa novela só nos deixa cada vez mais perplexos e apreensivos, porque não temos as sinopses dos próximos capítulos. Vivemos um momento histórico como todos que já aconteceram, só que este é agora. Meu pai foi diplomata, minha avó deputada estadual constituinte de 34, meu tataravô presidente da República de 1894 a 1898. A História do Brasil não pode ser tratada como se fosse utensílio de segunda mão. Vivemos um momento grave e só sairemos dele com muita seriedade e tino.

29/03/2016 



Lições de sábado 343

Às vésperas dos 54 anos de 1o. de abril de 1964, não sabemos como chamar a presente intervenção militar. Se adiantou ou não, chegamos à conclusão que muito pouco adianta no Brasil, onde os esforços são esvaídos por sucessivas estocadas contra a ordem e os bons costumes, a lei e o bom senso. Bandido nunca esteve tão à vontade. A corrupção para se instalar tem dois lados. E está há tanto tempo arraigada, que, ou se extirpa o mal, ou se mata o paciente. Pôr um freio aos atentados, às mortes, aos extermínios, à deflagração geral de insatisfação é uma necessidade. Desde 1964, esperamos que isso aconteça. E só acontece o oposto do que se pensa que deveria acontecer. Após o governo militar, o propalado governo democrático amealhou os mesmos corruptos e corruptores de antes do Golpe de 64, que se transmutaram para o novo governo. Ulysses Guimarães, ao discursar sobre a Constituição de 1988, pretendia que ali se inaugurasse uma nova era, que estava prestes a se extinguir nos 30 anos seguintes. Mal sabia ele que, em 1992, se iria com os peixes do mar, carregado pelas mesmas sereias que aturdiram o protagonista da Odisseia. A nossa pátria tão desvalida não merece, nunca mereceu maus governantes. Entre o mau e o pior, queremos ficar com o menos ruim. Somos capazes de humanidade. Por que não exercê-la?
29/03/201/ - 8h41


sábado, 17 de março de 2018

Lições de sábado 342

A criatividade não se esgota, ela reflui, para poder fluir novamente. É como a maré, alta e baixa, como o rio, em cheia e em estio, não se pode pensar que nunca mais haveremos de criar, porque a própria criação é sazonal. E só é poeta aquele que acredita que nunca mais irá escrever, e volta a escrever quando nem pensa que faria isso outra vez.

17/03/2018 - 10h31


quarta-feira, 14 de março de 2018

Lições de sábado 341

Não lamente a morte, não, não lamente. Lamente só quem você não encontrou e quem não teve por perto por mais tempo. Quem tem que partir, que parta. Não atrase o caminho dos que têm que ir. Lamente só o que em vida não se deu. O que em vida não se pôde fazer. Mas a morte, esta passagem para o que não sabemos, essa é ilamentável. Não se chora sobre o leite derramado, nem sobre quem aqui não pode mais estar. Se tem que partir, que parta. Mas enquanto ficar, que não se vá de perto de nós.
12/03/2018 - 19h40