sábado, 20 de janeiro de 2018

Lições de sábado 336

Abri um livro de Joseph Conrad (1857-1924), "Nostromo", e encontro uma citação de Shakespeare antes da folha de rosto: "So foul a sky clears not without a storm", que quer dizer "Um céu tão tormentoso só clareia após uma tempestade". Essa citação vem da peça "Rei João", Ato 4, Cena II, dita pelo rei a um mensageiro que lhe traz más notícias. A relação com o livro está ligada à política, guerras civis e intervenção estrangeira. O romance é marítimo e a edição é de 1947, com primeira impressão em 1904. Em capa dura, com a assinatura do autor impressa nas capas internas, mostra ser uma edição especial. A edição inglesa é de J.M. Dent and Sons Ltd. e tem um subtítulo, "A Tale of the Seaboard" ("Um conto marítimo"). Shakespeare influenciou muitos autores ao longo desses 400 anos após sua morte, com poemas e peças que se repetem sempre sob uma nova luz. "Ricardo III" corresponde aos ditadores que querem tomar o poder a qualquer custo. "Romeu e Julieta" veio de um poema que Shakespeare aperfeiçoou e transformou na sua melhor peça sobre o amor e o ódio. Pequenas referências literárias nos conduzem à nossa vivência diária e transpomos os limites entre o real e o imaginário. A citação usada por Conrad é um mistério ligado ao livro estudado por críticos. A discussão é: a que guerra Conrad se refere? Irving Howe diz que, em "Politics and the Novel" (1957) sobre "Nostromo", que "o progresso veio do caos, mas é um tipo de progresso que leva de volta ao caos".

20/01/2015


terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Lições de sábado 335

Quando lhe disserem que algo é impossível, e você sabe que não é, e se põe a fazer, saiba que, se der certo, é porque você tinha razão e, se não der, é porque não era para ser. Muitas coisas que fazemos são destinadas ao fracasso, porque simplesmente não se aplicam. Outras, essas que são bem sucedidas, só acontecem por um motivo: eram para acontecer, apesar de todos os prognósticos em contrário. Há coisas que ocorrem mesmo que nada façamos para isso. E outras que só acontecem, porque nos mobilizamos para fazê-las. É a relação espaço-tempo que determinam os acasos objetivos que levam à sucessão de eventos para que algo ocorra. Eu não estaria aqui se não tivesse de estar, e outros não estariam onde estão se não tivessem alguma função - o acaso é regido por leis próprias e inatingíveis. Então, antes de se perguntar "por quê?", pergunte-se "para quê?". Para que serve determinada coisa (ou como dizia a cantora francesa Françoise Hardy, "À quoi ça sert?") é mais importante de por que determinado fato ocorre - ocorre simplesmente para que algo se faça, aconteça e se realize, e isso não tem nada a ver com a nossa vontade - apenas é. 

9/01/2018 - 20h47




Lições de sábado 334

Acho incrível como um livro pode nos acompanhar a vida inteira, desde a mais tenra idade, sem se perder. Há outros que se perderam, e que nunca esqueço e que penso que um dia vou reencontrar. Há livros que vivem se perdendo de mim, mas que sei que estão em algum lugar, reencontro e perco de novo, sem nunca conseguir ler. Há livros que não querem ser lidos, simplesmente isso. E outros que você nunca esquece, mesmo sem ter lido de novo. E há livros que quando relemos descobrimos coisas que não lembrávamos. Livros são como pessoas, alguns inesquecíveis.

9/01/2018 - 12h34


Lições de sábado 333

Saiba, precisamos de ontens e hojes, como precisamos de amanhãs. Precisamos de agoras e de momentos, de instantes e segundos, precisamos de horas e dias, como precisamos de meses e anos, mas nunca precisamos tanto de pessoas, essas que fazem os dias, meses, anos, momentos, ontens, hojes e amanhãs tão importantes. Precisamos de nós. Só nós vivemos como se não tivesse amanhã. Feliz ano novo. Feliz 2018.
30/12/2017 - 17h09



quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Lições de sábado 332

A vida é um trânsito astrológico. Por mais que acreditemos em questões permanentes, elas sempre mudam, para melhor ou pior, buscando um equilíbrio. Um erro abre a possibilidade de acerto, uma crise traz uma conciliação, uma doença pode trazer uma iluminação. Mudanças são sempre difíceis, dolorosas e longas, mas provocam resultados positivos. Ao consultar os trânsitos astrológicos pelos quais passamos, percebo que tudo vai e volta ao mesmo ponto, criando novas chances, renascimentos, reconstruções, ebulições, pacificações, alternâncias ou estabilidade. Nunca sabemos (a não ser que consultemos o mapa astral diariamente) quando algo pode acontecer, e mesmo que façamos previsões, não saberemos exatamente o que acontecerá até que aconteça. Saberemos "o quê", mas não "como". Saberemos "quando", mas não "quem". Quando precisarmos de uma previsão, olhemos as estrelas, enquanto a Terra gira e os cometas  cortam o universo, imantando tudo com sua força, a que chamamos destino.

27/12/2017 - 13h32

   

domingo, 24 de dezembro de 2017

Lições de sábado 331

Natal para Vinicius era fundamental. Deve haver algo de beleza em tudo isso, senão o poeta não iria se deter para escrever sobre o Natal. Para isso fomos feitos. Para amar e chorar pelos que partiram e nos alegrarmos com os que chegam. A vida é infinita e infinitamente se desdobra para trazer mais sentido à própria vida. Vivemos o Natal para celebrar todos os acontecimentos: hoje é o dia do presente, hoje é o dia da beleza, hoje é o dia do milagre (olhar mais uma vez para ter certeza que se viu). Esperamos imensamente por dias como este, até que ele chega. Ele passará, mas, antes que passe, viveremos, na ponta dos pés, a alegria de estarmos num Natal, o Dia do Senhor, para que haja mais abraços entre irmãos.

24/12/2017 - 14h22


sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Lições de sábado 330

Fim de ano tem sempre o mesmo gosto: ano que vem será melhor. O que passou que não foi bom tendemos a rejeitar com um levantar de ombros e um desdém que não tem fim. Queremos esquecer o que não gostamos e nos fixamos apenas nos “bons momentos”. O que não foi bom também ajudou a sabermos o que é bom. Não adianta só querer a polpa do fruto. Tem que tirar a casca. Vivi sempre como se carregasse um fardo imenso, nunca vivi leve e despreocupada – talvez só na infância e adolescência quanto nada era assim tão sério, senão as seriíssimas questões de criança. Um dia escrevi num poema que só publiquei no Jornal Análise, do DCE Mackenzie: “Carrego um fardo, como quem voa”, que minha mãe achou o verso divino e repetia como um mantra. Assim deveríamos viver, como se voássemos, nada a nos preocupar a fundo, porque, segundo ela, “tudo já estava resolvido, pronto e terminado”. Hoje vejo que carregar fardos é um aspecto astrológico, não nos livramos disso tão facilmente. Há que se pagar um preço para ser “livre”. “O preço da liberdade é a eterna vigilância”, disse Abraham Lincoln. Então, nunca seremos tão livres assim, se tivermos de tomar conta dos inimigos, declarados ou não. Fim de ano tem gosto de quero tudo novo, quero tudo melhor, quero estar feliz sem ter de me preocupar. E principalmente sem ter contas para pagar. Se a vida termina de repente, não podemos nos preocupar só com pagar as contas. Temos de viver, mesmo sem as contas pagas. Porque isso, segundo consta, se resolverá por si só. 


22/12/2017 – 16h33