sábado, 27 de dezembro de 2014

Lições de sábado 182

As mudanças desafiam o tempo. Tudo nasce, cresce e morre, mas quer se manter permanente. O que precisa mudar transfigura-se, adapta-se para resistir. E mesmo assim elas ocorrem. Procuramos sinais de permanência nas casas, nas pedras, nas árvores e, embora tudo esteja sempre mudando, há traços que dormem na aparência. Isso nos faz lembrar de nós mesmos. Daí a repetição dos dias. As cores do céu podem mudar, mas ainda é o céu. Procuramos a permanência. E no efêmero dos dias, estendemos o manto do tempo, para nos sentirmos vivos. E guardar nos gestos o que passa e deixa em nós as suas marcas.

27/12/2014 - 21h48


Lições de sábado 181

O cemitério de Père-Lachaise, em Paris, ganhou seu nome a partir de François d'Aix de La Chaise (1624-1709), conhecido como Père La Chaise, confessor de Luís XIV, que residiu neste palacete de 1675 até sua morte em 1709. Napoleão Bonaparte, como cônsul, decretou que "todo cidadão tem o direito de ser enterrado independente de sua raça ou religião", incluindo os ateus, os excomungados, os atores e os pobres. Mas o cemitério não tinha a preferência dos parisienses que não queriam ser enterrados em um bairro tão pobre. Em 1804, o Père-Lachaise tinha apenas 13 sepulturas. No ano seguinte, tinha 44, depois 49 em 1806, 62 em 1807, e 833 em 1812. Em 1817, para melhorar a imagem do cemitério, a prefeitura de Paris fez a transferência dos despojos de Abelardo e Heloísa, além de Molière e La Fontaine. Foi o que bastou: em 1830, havia 33.000 tumbas. O Père-Lachaise sofreu nessa época 5 reformas para aumentar de tamanho: em 1824, 1829, 1832, 1842 e 1850. Estas permitiram passar de 17 hectares 58 ares (175.800 m2) a 43 hectares 93 ares (439.300 m2) para abrigar 70.000 túmulos, 5.300 árvores, uma centena de gatos, inúmeros pássaros e 3,5 milhões de visitantes. As celebridades enterradas no Pére-Lachaise hoje vão de Edith Piaf a Jim Morrison, de Oscar Wilde a Chopin, além de Balzac, Delacroix, Marcel Proust, Paul Eluard e Allan Kardec, localizada na seção 44, provavelmente a mais florida do cemitério. A lista é imensa. Na portaria, recebemos um pequeno folheto com os nomes e as localizações das sepulturas dos famosos. Algumas estão destruídas, mas outras são preservadas e limpas, sempre com flores frescas, como a de Chopin. Abelardo e Heloísa têm um mausoléu com efígies do casal de amantes sob uma castanheira. Eu trouxe duas castanhas que colhi no chão ao lado do túmulo em 2005, que guardo até hoje. As mais procuradas são de Kardec e Morrison, que está sempre florida e pichada, como a de Wilde, que foi toda grafitada e marcada com beijos de batom.

25/12/2014 - 17h30




Lições de sábado 180

Les Mardis mallarméans, as Terças de Mallarmé, começaram em 1877, encontros quinzenais em sua casa, onde reunia artistas, escritores e músicos para um bate-papo informal para troca de ideias. Num desses encontros, Mallarmé conheceu Claude Debussy, e lhe pediu que compusesse uma música para acompanhar a leitura de seu poema "A tarde de um fauno" (1876), publicado com as ilustrações de Edouard Manet (que também ilustrou a sua tradução de "O Corvo", de Edgar Allan Poe). Debussy somente compôs o "Prelúdio à tarde de um fauno" (1894), depois que Mallarmé desistiu de fazer a leitura acompanhada da música, temendo que chamasse mais atenção que o poema, mas foi a inspiração para essa peça, que 18 anos mais tarde, se tornaria a primeira coreografia moderna de Nijinsky, que estreou em Paris, sob vaias. O poema de Stéphane Mallarmé foi o primeiro poema moderno, que originou a primeira composição impressionista de Debussy e consequentemente o primeiro balé moderno, coreografado e interpretado por Nijinsky, em 1912.

27/12/2014 - 14h23





Lições de sábado 179

É como dizer a si mesmo: "Tudo vai dar certo", mesmo sem saber como. Vivemos num pequeno planeta chamado "Nosso mundo" e nele temos de revolver os vulcões, porque "nunca se sabe" quando explodirão. Aí nasce uma rosa, que nos cativará pelo tempo que gastamos com ela. E um dia partimos para outro mundo, outras terras e conheceremos outros homens, quando uma cobra irá nos levar de volta à nossa estrela, mas não antes de encontrar alguém que nos desenhe um carneiro. E, para melhorar, sempre teremos um novo pôr do sol ao final do dia.

26/12/2014 - 15h24



Lições de sábado 178

Como um sonho, atravessei suas ruas, estive em cada parte de tua cidade, como se soubesse o caminho, que descobria caminhando.

25/12/2014 - 00h38


Lições de sábado 177

Não mudamos o passado, mas podemos sublimá-lo. Entendê-lo como passagem, e não sofrimento. O passo errado, a palavra que foi dita, tudo pode ser perdoado. Mas o que muda o presente é aceitá-lo.


25/12/2014 - 00h33




Lições de sábado 176

A vida corre como um rio, dissipa-se como nuvem, espera à margem como as árvores. Se formos pedra, teremos a eternidade. Se formos montanha, a altura. Toda a vida cabe em nós, como metáfora. Por isso entendemos a paisagem, porque está contida no que vemos. E o que vemos é a vida que guardamos.

25/12/2014 - 00h32


quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Lições de sábado 175

Este foi O ano. Até apareceu um gato em minha casa, coisa que nunca entrou em tempo algum. Mas tudo que pensamos certo, muda e o que poderia mudar, torna-se permanente. É a lei das alternâncias. Saturno estava há dois anos em Escorpião, segurando todas as alterações, fazendo-nos refletir longamente sobre o que queríamos conquistar. Agora que entrou em Sagitário, na Lua Nova (Solstício de Verão, em 21 de dezembro), tudo que estava parado, vai começar a se mover, e os valores permanentes se destacarão. Certa vez eu disse que o segredo era descobrir a diferença entre o efêmero e o permanente. Há pessoas que entram em nossa vida que pensamos que ficarão e logo saem, e outras que conhecemos por acaso que são as que ficam. Quem fica não precisa estar o tempo todo ao nosso lado, mas é a que tem significado por mais tempo em nossa vida. Fazer essa distinção é o que nos leva adiante, e nos faz compreender as mudanças. As efêmeras passam, mas as permanentes ficam. Eu acredito em bens permanentes, aqueles que duram uma vida inteira.

24/12/2014 - 13h09


sábado, 20 de dezembro de 2014

Lições de sábado 174


"Não peça desculpas. É um sinal de fraqueza". 
Leroy Jethro Gibbs, NCIS (AXN) 

Um dia me perguntaram como eu tinha certeza do que estava fazendo. Eu me habituei a não ter dúvidas. Porque se as decisões dependiam só de mim, eu teria de saber tomar decisões sozinha. E com o mínimo risco possível. Às vezes, isso não é factível. Os riscos são o imponderável. O que não se pode prever. Por isso contamos com a sorte. E para ter sorte, é preciso rezar muito para que os erros sejam menores. Então Gibbs em sua Regra # 2 ou # 3, alerta para as certezas que devemos ter quando agimos. Não que não devamos pedir desculpas, mas não nos desculpar o tempo todo pelos erros que não podíamos prever. Errar é humano, mas também é humano aprender com os erros e assim aumentar nossa margem de acerto. Também me perguntaram se eu não me cansava "de estar sempre certa". Não, eu não me canso de acertar, pois é para isso que estamos aqui, para aprender a acertar. E os acertos nos tornam mais fortes, mais seguros, mais certos do que fazemos, não que tenhamos abolido os azares, mas teremos criado uma margem maior de acerto, uma possibilidade de não errar. Para isso, basta planejar como acertar. Como num jogo de xadrez.


20/12/2014 - 18h30




Lições de sábado 173

O tempo nos impõe paradas e retomadas, pressa e diligência, atenção e intuição. O tempo nos impõe paciência, pois nem tudo se resolve de imediato. Temos de superar as fases e as etapas, os estágios, seguir o passo a passo, até atingir o ápice, o auge de uma situação, até que se desfaça, desmorone, se desmonte em pedaços tudo que supúnhamos sólido e inteiro. O tempo guarda marcas, pegadas por onde passamos, para que lembremos o que foi feito. Uma anotação aqui, um bilhete ali, inscrevemos nossos feitos numa linha cronológica para que saibamos depois onde estivemos, o que dissemos e o que fizemos. Nossa arqueologia pessoal. Nossa odisseia imaginária. Nosso livro aberto. Sem o tempo não saberíamos o que houve ontem, há dez, vinte, trinta anos, nem há um século, ou há 300 anos. O tempo marca, com suas horas, o que fazemos e o que queremos fazer, mas somente o que foi feito deixa vestígios. São esses vestígios que lembramos. Assim nos reconhecemos. Somos somente o que lembramos. O que não lembramos, não vivemos, não poderemos reviver, não temos como guardar. Por isso as paradas são necessárias, para pensarmos sobre o tempo, que efeito ele teve sobre nós e o que fizemos enquanto ele passava para o infinito. 

20/12/2014 - 16h54 




domingo, 14 de dezembro de 2014

Lições de sábado 172

Quando pensamos amar, não amamos realmente. Aceitamos a superficialidade do amor como o amor total, quando ele não se entrega, nem se satisfaz. O amor que não beija, nem toca, não é amor. E, no entanto, ele se sustenta, como se pudesse existir, intocado. Substituímos a plenitude do amor por suas miragens, o que pensamos ver e julgamos suficiente. As distorções do amor são aparências feitas para nos enganar, que acreditamos estarem enraizadas no amor, quando os frutos que colhemos são amargos. Tanto se faz e se diz em nome do amor. Mas esse amor imperfeito, afeito a condições e subterfúgios, nunca se realiza, mesmo que aparentemente esteja ali. E tudo que pensamos dele não é sua incompletude, porém somente aquilo que imaginamos que se realizou. Amar não exige forma, mas tem seus modos. Não exige presença, mas está presente. Nunca se exime, pois é a única realidade que se dá a conhecer. Não se pode ter, mas sentimos em nós, como se fizéssemos parte dele. Buscamos o amor na ilusão do amor, e não em sua inteireza, pois para estar inteiro não podemos vê-lo. Assim como Eros que não se mostrava a Psique. Confiar no amor sem ver é um salto no escuro e, no entanto, vemos sem nossos olhos. E o que vemos e sentimos não podemos descrever.
13/12/2014 - 22h12 


domingo, 7 de dezembro de 2014

Lições de sábado 171

Tenho poucas paixões, mas elas me preenchem completamente. Para começar pelo que faço, que reúne todos os elementos essenciais ao conhecimento. As histórias que ouvi desde pequena, os livros que li, os personagens que conheci, os filmes que assisti, as músicas que ouvi, as pessoas que encontrei, todas elas remetem a uma parte do meu ser que é permanente, que não muda, nem envelhece. Ali todos coexistem em plena paz, como se o tempo fosse um moto contínuo no qual pudéssemos nos mover para frente e para trás e ver todos os que conhecemos, os que vivem e os já viveram. A qualquer momento podemos voltar ao instante mágico em que Julio Cesar disse "A sorte está lançada", e essa frase ecoou por todo tempo adiante. A qualquer hora podemos recordar os grandes feitos e os desastres, os grandes poemas e seus poetas, pensar na História não como um a parte dos livros, mas algo que vive constantemente em nós. Trazer qualquer lembrança como se fosse nossa, e usá-la para o bem da Humanidade. Aprender e ensinar são lados da mesma moeda. Aprendemos enquanto ensinamos e ensinamos enquanto aprendemos. O que sei hoje, sei melhor do que sabia antes, porque repeti para mim mesma mil vezes antes de dizê-lo agora. Agora, eu sei. E o que tiver de aprender, poderei ensinar do mesmo modo, sendo essa também uma das minhas paixões. O que sabemos é permanente. E aprendemos com o novo onde ele se encaixa e o que podemos aprender com ele.

7/12/2014 - 18h17 


Lições de sábado 170

O pai de Prudente de Moraes, José Marcelino de Barros, era tropeiro e percorria o sul do Brasil levando encomendas, cartas, pacotes, mercadorias e dinheiro, como esses que aparecem neste quadro de Debret. Os tropeiros faziam a comunicação com o interior, e traziam as notícias até lugares longínquos. Um dia foi morto numa emboscada por um negro escravo, que andava amuado com ele, deixando Prudente e os irmãos, ainda pequenos. A mãe D. Catarina Maria de Moraes, casou-se novamente com um coronel que não dava importância à formação escolar, e quis usar o dinheiro guardado por Marcelino para os meninos para outros fins. Catarina não arredou pé, o dinheiro seria usado para seus estudos como o falecido marido desejara. E assim foi. Depois de concluir a escola em Piracicaba, rumou para São Paulo para entrar na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, com seu irmão, o futuro Senador Moraes Barros. Ali se formaram e fizeram parte do primeiro grupo dos republicanos do país, fundando um partido, em Itu, cuja ata de constituição foi redigida por Prudente, do Partido Republicano. De origem relativamente humilde, teve formação sólida, e esteve lado a lado das principais figuras do começo de nossa República, até se tornar o primeiro presidente civil eleito por voto direto em 1894.

4/12/2014 - 19h


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Lições de sábado 169


Há 112 anos, morria Prudente de Moraes e chegava ao Brasil, no mesmo dia, o Barão do Rio Branco, para assumir o Ministério das Relações Exteriores, vindo da Inglaterra, onde serviu como embaixador. Ao desembarcar do navio e saber que Prudente havia falecido, cancelou sua posse no Ministério, dizendo: "Primeiro, tenho que enterrar um amigo". Seu discurso em Piracicaba foi aclamado pelos presentes, no mausoléu em que Prudente foi enterrado. O Barão tinha longa amizade e gratidão para com Prudente por seu apoio, pois, ao se oporem à indicação de seu nome por ser barão para exercer funções na República, Prudente lembrou-lhes: "Ele é um bom brasileiro" .

3/12/2014 - 14h18

Prudente de Moraes (1841-1902)
José Maria da Silva Paranhos Júnior, Barão do Rio Branco (1845-1912)



Lições de sábado 168

Cerquemo-nos do que nos é mais caro, juntemos os livros, as xícaras, as cartas. Peguemos a mobília da casa, as cortinas das janelas, os tapetes sobre os assoalhos, e penduremos os quadros que mais amamos, tudo isso com abajures e castiçais, uma luz tênue e frágil, para abrigar a alma, esta a única que vive, sob todas as circunstâncias.


28/11/2014 - 21h12




Lições de sábado 167

Oscar Wilde e Fernando Pessoa morreram no mesmo dia, 30 de novembro, um em 1900 e outro 35 anos depois. Um irlandês, outro português, que também escrevia em inglês. Um aos 46 e o outro aos 47 anos. Ambos marcaram época e um estilo inconfundível, tanto na poesia, quanto na prosa. Celebrados em todo lugar, ombreiam seus contemporâneos, mas aqui os dois se encontram, tendo o mesmo dia de morte. Se o dia de nascimento é escolhido ou determinado de alguma forma, o de morte também deve ser. Se um, que celebramos todos os anos durante a vida, tem um significado, o de morte também tem. E por isso respeitamos esse dia, por marcar uma passagem no tempo, uma efeméride, marcada nas estrelas, como tudo que fazemos e nos acontece. Fernando Pessoa era astrólogo, e sabia disso, por isso criou uma data de nascimento para cada um de seus heterônimos. E de morte também. Houve um heterônimo que morreu depois dele, Ricardo Reis, e por isso Saramago escreveu um livro: "O dia da morte de Ricardo Reis". Por ela também ter sido importante.

30/11/2014 - 20h44







Lições de sábado 166

Sempre, no final do ano, muitos se vão. Como se escolhessem o final da linha para terminar a jornada. A lista daqueles que partiram ao fim do ano se alonga quanto mais se pensa que a missão deles se cumpriu. Achamos que a vida deveria durar mais, toda vez que alguém morre. Aí nos lembramos que ela não é infinita. Mas estar aqui nos faz sentir imortais. Enquanto houver vida, nós a viveremos. E não pensaremos que um dia isso acaba. Até o dia que acaba. Os que partem, vão inteiros. Nós ficamos sós com a partida.

18/12/2011 - 23h08


Na foto a família Prudente, os filhos e o casal, da esquerda para a direita: Prudente de Moraes Filho, Maria Amélia (minha bisavó), Adelaide (minha tataravó), Paula (caçula, no colo da mãe), Gustavo, Carlota, Maria Thereza, Prudente de Moraes, Antônio e Júlia.