quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Lições de sábado 233

UM CONTO DE NATAL (Charles Dickens)
Uma das histórias mais fascinantes, escrita por um dos autores mais prolíficos de seu tempo, Um Conto de Natal reúne magia, fé, caridade e consciência humana num mesmo enredo, e o poder transformador do amor. Com humor e perspicácia, Dickens conduz o leitor a uma autoanálise, para que reavalie o que tem feito para tornar os Natais (e o ano inteiro) melhores, deixando de lado os valores meramente materiais, usados apenas como meio para tocar as pessoas, e dar-lhes o que lhes falta. Esta é uma história que vale a pena ser lida e relida todo ano, que, como o Quebra Nozes e o Rei dos Camundongos, que serviu para dar origem ao Ballet de Tchaikovsky, são histórias mágicas do Natal, um momento de transformações e rituais de passagem, celebrando o nascimento Daquele que nos trouxe essa mensagem de Amor.
24/12/2015

sábado, 14 de novembro de 2015

Lições de sábado 232

O olho não é um instrumento preciso. Daí existir a "ilusão de ótica". O que pensamos ver, de fato, não vimos, mas temos a certeza de termos visto. Testemunhas oculares se enganaram redondamente quando confrontadas com fotos e filmes daquilo que julgavam ter visto. O que guardamos na memória nos trai, porque temos uma lembrança seletiva, só recordamos o que queremos guardar, o que é caro para nós, o que pensamos que teve mais importância. Uma avaliação isenta é quase impossível, pois, para todos os relatos, acrescentamos a nossa impressão, a nossa opinião, a nossa falibilidade como observadores casuais. Assim disse Baudelaire, em seu livro "Palimpsesto": "O que é o cérebro humano, senão um palimpsesto imenso e natural? Meu cérebro é um palimpsesto e o vosso também, leitor. Grandes camadas de ideias, de imagens, de sentimentos, caíram sucessivamente sobre o vosso cérebro, com a mesma suavidade da luz. A impressão era de que cada uma sepultava a precedente, mas nenhuma pereceu, na realidade".

14/11/2015


terça-feira, 27 de outubro de 2015

Lições de sábado 231

Este país anômalo que começou como colônia, tornou-se império e depois República, reuniu os personagens mais variados, os governantes mais conflitantes e passou por situações extremas em diversos momentos de sua história, pode se tornar seu próprio pesadelo ou seu sonho realizado. A lenta desmontagem e desconstrução de um partido que não corresponde ao que seus idealizadores se propuseram, a análise das ações mais abjetas para obter vantagens financeiras enquanto administram um povo imerso em caos de toda ordem, faz com que tudo que foi dito até agora perca o efeito. Vão ter de reinventar a forma de entender a si mesmos e explicar o que fazem. Ou saímos deste beco ou resolvemos tudo de outro modo. As leis heterogêneas que fazem com que sejamos tratados como joguetes, os desfavorecidos que nada têm além do alimento, nos mantêm em suspense. Nada do que passou nos garante um futuro que não temos condição de prever.

27/10/2015


sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Lições de sábado 230

O que aprendemos ao ensinar aprofunda o que ensinamos. Tornamo-nos alunos de nós mesmos, ao repetir o que sabemos. Revemos o aprendido e jogamos nova luz sobre o ensinamento. O ensinamento é maior que o mestre. Revela-se novamente cada vez que é ensinado. Aprendem juntos, mestre e aluno, a absorver o que é dito, não só nas palavras, mas no silêncio da compreensão. Despertar para algo novo nos move interiormente numa direção que não prevíamos. Quantas portas se abrem ao menor movimento. Os ouvidos ouvem e a alma se mexe. Ouvimos com o corpo todo. Entendemos com o coração o que a mente aprende. Seja um poema, seja um conto ou uma parábola tem o dom de nos tirar da inércia e colocar-nos à frente, conduzindo um fato novo. Um livro é um ser, não um objeto. Ele mudamente diz o que está escrito. Contém a sabedoria do que foi escrito. E permanece entre os homens, como palavra viva depois que os lábios se cerram. Por isso são passados, de mão em mão, e se renova sua mensagem para outros ouvidos, para outros olhos que o leem. Essa a missão dos que escrevem. A missão dos livros. Levar as palavras além de seu horizonte e mover-se com a Terra, num giro infinito.

16/10/2015 - 19h08 

Reading in the Garden, 1915, Nikolay Bogdanov-Belsky 
 

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Lições de sábado 229

Agosto acabou. Bem a desgosto. O mês de Augusto, sucessor de Júlio César, que inventou julho para si, com 31 dias. Daí, Augusto César, seu filho adotivo, depois de vencer Marco Antônio e Cleópatra, inventou agosto, também com 31 dias, mês de invejoso, de quem subjugou os demais para ascender ao poder e tornar-se imperador, que César não foi. Por isso deslocaram setembro, o sétimo mês (eram décimo), para nono lugar, e sucessivamente, outubro, o oitavo, novembro, o nono, e dezembro, o décimo, para o décimo, décimo primeiro e décimo segundo lugar, respectivamente, criando um calendário de doze meses, chamado Juliano, em homenagem a Júlio César, que tinha inventado essa mudança antes de ser assassinado em 44 a.C. Agosto, mês de desgosto. Do cachorro louco. Da morte de Getúlio e da renúncia de Jânio. Historicamente, um mês a contragosto. Ainda bem que acabou. Foi tão do contra, que não teve nem inverno.

1/09/2015


Lições de sábado 228

Aulas de História do Brasil que eu não tive
Alguém sabia que D. João VI morreu envenenado a mando da mulher, Carlota Joaquina? Pularam essa parte na aula de História. Fui ler sobre o pai de D. Pedro I e descobri essa pérola. D. João VI sabia do risco que corria e armou para ela. Fez com que a sucessão fosse para Isabel, irmã de Pedro, Imperador do Brasil, enquanto ele não viesse assumir o trono. Mas Pedro I do Brasil e IV de Portugal tinha outras ideias. Recebeu a coroa e abdicou SETE DIAS depois em favor de sua primogênita Maria da Glória, que se tornou D. Maria II, aos sete anos de idade. Ele apontou seu irmão D. Miguel para ser seu regente. E voltou para o Brasil, pois, segundo a Constituição de 1824, que ele mesmo escrevera, a Carta Outorgada, ele não poderia ser rei de Portugal e Imperador do Brasil ao mesmo tempo. Sabiam disso? Aposto que não. Essa parte também não nos ensinaram. Feliz Dia da Independência do Brasil. Desse D. Pedro I, que fez mais pelo Brasil em pouco tempo do que muito político a vida inteira.

7/09/2015 - 19h


Lições de sábado 227

Um dos filmes que mais me fascinou foi "Fahrenheit 451", em que livros eram queimados para não poderem mais ser lidos e as pessoas passavam a decorá-los e se tornavam obras vivas, para que estas não morressem. É um filme emblemático. E, para variar, em torno de livros. Quantas histórias giram em torno de livros? Esta mostra a perseguição aos livros em todos os tempos, em que, para eliminá-los, eram queimados. Como uma queima de bruxas. A atriz do filme, Julie Christie, torna-se o símbolo dessa ressurreição através do livro.

14/09/2011


Lições de sábado 226

Para evitar a frustração, pense nas coisas que fez, não nas que não fez e, se isso não bastar, pense nas quer quer fazer e nas que fará.

29/09/2015 - Dia de São Gabriel, São Miguel e São Rafael




Lições de sábado 225

A proximidade não existe apenas entre os corpos. A proximidade de almas é estarem sempre juntas. Não só os olhos veem o amado, mas o amado não deixa nossa mente e o vemos como se estivesse perto. Ver, não só com os olhos, mas em espírito, de onde nunca partimos.

11/10/2015


Lições de sábado 224

Aprender não é só um exercício de um dia. É um constante fazer e refazer. O que sabemos, reaprendemos todos os dias. O que fazemos teremos de refazer. Tudo se renova no aprendizado constante de viver. 

Ao Dia dos Professores, 15 de outubro de 2015


domingo, 20 de setembro de 2015

Lições de sábado 223

Não há um completo silêncio. Há apenas sons que se misturam aos pensamentos, que também não cessam. Não há palavras, mas sons, como buzinas ao longe, sussurros de vento, barulho de chuva, tinir de xícaras. O silêncio total, som algum, como uma surdez temporária, não há. Mesmo o mais denso silêncio das florestas ainda é cheio de farfalhar de folhas e pios de coruja. E ouvimos o som da Terra se movendo, das estrelas trafegando no céu, e o mar que bate nas praias. Há um silêncio entremeado de sustos, como as pausas na música, audíveis em entreatos de emoção, que se sucedem como o voo dos pássaros e a erupção de vulcões.

14/09/2015 - 00h52



Lições de sábado 222

Diga-me por onde andas, que te direi quem és.
Há lugares onde não faz sombra, há sempre luz por onde se caminha. As portas estão sempre abertas, e podemos ir a todos os lugares. Uma casa que recebe todos os que batem à porta e nela encontram um refúgio, onde há livros de todos os tipos, para todos os leitores. Assim é a visão do paraíso para Borges, uma biblioteca. E para muitos de nós, uma pequena ou uma grande livraria, onde os livros nos chamam para entrar.

19/09/2015 - 00h50


quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Lições de sábado 221

Quando se pensa que se está caminhando numa direção, ela muda, como um vento que sopra ao contrário. Imagine o que era velejar dependendo dos ventos. Resta-nos nadar contra a maré ou mudar o curso. Reinventar a roda, fazer novos planos, executar outros projetos, talvez aqueles que ficaram tanto tempo esperando por uma chance. Eu só fiz o que tinha de fazer quando minhas opções acabaram.

3/09/2015 - 13h24


terça-feira, 25 de agosto de 2015

Lições de sábado 220

Eu deveria estar habituada, mas não há como me habituar com surpresas. Se tivéssemos previsão de tudo que vamos fazer, não haveria emoção alguma em fazê-lo. O que os distingue é a novidade. O que não sabemos como irá acontecer. Se começo algo sabendo exatamente como vai terminar, que graça tem? Posso desejar que termine bem, mas isso não me garante o resultado. O passo a passo é que me faz acreditar que estou no caminho certo. A surpresa é inerente. Nada termina como começou, nem nenhum livro sai como entrou. Ele sofre um processo de transmutação entre ideia e realização. Quando me veem com um livro "pronto", eu sempre aviso que ele poderá mudar, não porque eu queira, mas porque o próprio livro quer. É o livro que pede a mudança. Quando entrei naquela livraria para esperar o horário do cinema, não esperava que eu fosse ser puxada pela manga para olhar uma publicação que tinha uma palavra que eu precisava consertar no livro que estava revisando. Toda vez que erramos numa revisão, em seguida, vem o conserto através de outro livro, de uma matéria no jornal ou notícia na TV, ou até numa conversa ao acaso, ou placa de rua. É o acaso que faz com que percebamos os erros. Tudo é muito sutil, não dá para explicar por que acontece assim, apenas que acontece. Já me vi tantas vezes enredada em revisões que não sei como vão acabar (mas que acabam), que só quando estou com o produto final nas mãos eu sei que consegui terminá-lo. Quando me trazem um livro "pronto", eu digo: "Não é assim que se faz". O livro faz a si mesmo, e nos refaz junto com ele. Eu tenho que descobrir o que o livro quer, porque como todo ser novo, ele quer toda a atenção que merece.

25/08/2015 - 12h15


sexta-feira, 24 de julho de 2015

Lições de sábado 219

Para que serve o escritor?

O escritor inspira aqueles que o leem a viver melhor. A conhecer melhor os seus sentimentos. A entender melhor os seus pensamentos. A definir o que que querem dizer com suas palavras. Anne Morrow Lindbergh, de quem lancei recentemente o seu "O Unicórnio e outros poemas", tem poemas que servem de modelo para atitudes nevrálgicas na minha vida. Seu poema "Até mesmo", quando ela diz "Aquele que eu amo/ desejo que seja livre/ - até mesmo de mim" traçou uma direção em minha vida. Eu não saberia amar de outra forma, senão como Anne a definiu. Então, eu aprendi a amar a partir desse poema quando o li aos 18 anos de idade. Evidente que não é um aprendizado instantâneo e, como a palavra diz, é um aprendizado lento, algo que se faz por etapas, aprendendo a libertar aqueles que amamos de nós mesmos. E assim são todos os escritores, nos ensinando que "poesia é paisagem", como diz Fernando Pessoa, que "é preciso continuar, apesar de", como diz Clarice Lispector, que "o  essencial é invisível para os olhos. Só se vê bem com o coração", como diz Saint-Exupéry, e "vossos filhos não são vossos filhos", como diz Khalil Gibran. Foi com escritores como esses e outros que conduzi minha vida. E tudo que aprendemos com aqueles que escrevem torna-se essencial para nós. Viva os escritores hoje e sempre. 

25/07/2015 - 01h01 - Dia do Escritor 

Máquina de escrever de Anne Morrow Lindbergh


quinta-feira, 23 de julho de 2015

Lições de sábado 218

Quando um livro nos chama
Posso fazer todas as hipóteses e formular todas as teorias por que um livro assentado confortavelmente dentro de uma livraria me chama do outro lado da cidade, e eu o atendo, sem saber nem que me chama, nem por quê. Eu só sei que quando um livro que estou fazendo tem um erro crasso, ele faz tudo para que eu o conserte e, desta vez, ele conseguiu: fez eu vir até a Blooks, no Espaço Itaú de Cinema para comprar a nova edição de "As aventuras de Pinóquio", de Carlo Collodi, com tradução de Ivo Barroso, ilustrada, e descobrir uma palavra errada no livro que estou fazendo. Abri o livro ao acaso e lá estava ela acenando para mim. Acredite. Livros fazem isso. De lambuja, comprei "O cão dos Baskerville", de Arthur Conan Doyle, que li há 40 anos. Livros falam.


18/07/2015 - 21h51


Lições de sábado 217

Trabalhando até esta hora?
Os dias começam tarde, só é possível começar a conduzir o fio do pensamento quando faz certo silêncio em volta das coisas da casa, quando tudo se assenta, e não somos mais acossados por telefonemas e celulares tocando. Mais cedo fazia um barulho de quebra-quebra infernal do apartamento três andares abaixo de uma obra que já dura mais de mês. Devem estar derrubando as paredes. Então, nesse horário, não consigo nem pensar, quanto mais trabalhar. Depois cessou, e quando vi, já era 18h, e aí comecei a trabalhar, portanto para mim, deve ser 15h, pelo meu relógio interno, e eu teria direito a mais umas duas horas de labuta, até fechar o botequim, e depois o happy hour, até umas 3h ou 4h da manhã. Ainda bem que o peso foi ontem e hoje só tive pedregulhos para tirar da pedreira. Mais um livro se encerra, e outro ainda envereda por caminhos nunca antes navegados. E outro ainda principia, enquanto outro segue. A máquina de fazer livros não escolhe a hora, apenas se apronta. E ficamos à mercê das invenções do tempo para que se fechem os ciclos que abrimos. Se navegamos, aprendemos a ancorar e esperar os ventos.

16/07/2015 - 00h16


Lições de sábado 216

Amigos à parte
O relacionamento com certos amigos tem a tendência de virar lenda. Quando nos referimos a qualquer coisa dita por eles, rimos como se não pudéssemos contar a história inteira, ou fosse uma longa história. Na verdade, a história pode ser até pequena, mas o envolvimento emocional é tão grande, que demanda muita energia para ser contada. Cria-se o que Millôr Fernandes chamava de "indioma", não o idioma comum falado entre as pessoas, mas uma linguagem interna, um vocabulário conhecido apenas por iniciados, não por iniciantes. É comum existirem essas palavras numa mesma família, em que situações, pessoas e fatos são narrados com uma descrição especial, Minha família é cheia desses "indiomas", expressões essas que passo para meus amigos, que os adotam imediatamente, como se fossem deles. E ainda criamos outros, nossos próprios indiomas, em que a menção de uma palavra dessas basta para cairmos na gargalhada. Assim são minhas amizades, especiais e indiomáticas.

15/07/2015 - 20h17


Lições de sábado 215


Dizem que tudo que será feito já foi determinado. Que não cai uma única folha sem que esteja previsto. E nós não nos lembramos disso, não estamos atentos a esse movimento. Se alguém me faz sentir que tê-lo encontrado tornou minha vida melhor, então há premeditação nesses encontros ou pós meditação, pois só me dou conta depois. E tudo que dizemos está dito: tudo que fazemos é apenas reconhecê-lo.

22/07/2015 - 1h05


sábado, 4 de julho de 2015

Lições de sábado 214

Mário que se conhece Andrade
Há muitas coisas para se dizer sobre Mário de Andrade, além de ter promovido a Semana de Arte de 1922, sendo o músico e escritor que era, além de poeta afiado, crítico e missivista contumaz. Sob seus olhos, não escapava nada. Para tudo ele tinha um comentário, um adendo, uma opinião e um conselho, principalmente aos mais jovens. Amigo de Prudente de Moraes, neto, conhecido no meio jornalístico como Pedro Dantas, ou para os amigos apenas como Prudentico, reservou a este toda a atenção que o tempo lhe dispôs durante o período em que morou no Rio de Janeiro, companheiro de copo e de samba. Foi por causa dele que Prudente perdeu o maior furo da História, no dia da morte de Mário de Andrade, quando, ao final do périplo de bares, na Taberna da Glória, bebendo em memória do amigo, fazendo o mesmo percurso que costumavam fazer juntos, Prudente ouve um oficial americano se gabar de uma arma potente que podia arrasar uma cidade inteira, que tinha a luz do sol, e cabia bem na sua mão... Prudente já estava bêbado demais para abordar o americano e arrancar dele a história que ele sabia, em 25 de fevereiro de 1945. Somente no dia 6 de agosto, quando caiu a bomba em Hiroshima, Prudente entendeu a que o oficial se referia. Mas, por causa da tristeza em que se encontrava, além do seu estado alcoolizado, não pôde dar o furo sobre o ataque da bomba atômica, definido exatamente no mês em que Mário de Andrade morreu.
4/07/2015 - 22h04


"Retrato de Mário de Andrade", de Cândido Portinari (1935). Portinari o retratou como ele era, o que não vemos nas fotos, com a pele mulata.



sábado, 27 de junho de 2015

Lições de sábado 213

A vida começa pelo princípio. Por princípios, regemos nossa vida, como a orquestra segue a batuta e a pauta musical. Descobrimos o que é certo e errado, e o que pode mudar com o tempo. Aprendemos a arrefecer. A nos tornar mais brandos, menos encolerizados quando nos contrariam. As infantilidades devem ser colocadas de lado, e descobrimos como reagir corretamente. O que é bom ou mau apresenta-se muitas vezes misturado, e devemos ter princípios para fundamentar nossos atos. Sofro de "principismo", como disse um amigo, mas sem essas regras, estaríamos vivendo junto aos lobos, na floresta. Se a vida tem princípios, e tudo começa em um, seguimos uma linha invisível que nos traz até onde devemos estar, para que atinjamos nossos objetivos, que estão no fim. Princípio e fim são um, pois um leva ao outro, e o que fazemos no meio é manter a direção, mesmo que nada nos assegure do final, apenas o princípio que nos mantém.
27/06/2015 - 16h08 - Pela conquista das igualdades. Parabéns!


sábado, 20 de junho de 2015

Lições de sábado 212

À moda de Khalil Gibran, digo, que "nossa vida não é nossa vida. É apenas a ânsia da vida por si mesma". Aquilo que pensamos que vem de nós, vem apenas através de nós, e o que será nosso futuro, não poderemos imaginar nem em sonhos.

20/06/2015 - 13h20


domingo, 14 de junho de 2015

Lições de sábado 211

As pequenas coisas se resumem a gestos, sorrisos e um olhar perdido como se nada buscasse. A beleza das coisas justapostas, o equilíbrio entre forma e corpo, um tempo dentro de momentos mais lentos. Tudo se perpetua pelos seus valores ocultos mais do que pelo que julgamos valer. 

15/06/2015 - 00h15

Café St. Régis, Paris

sábado, 13 de junho de 2015

Lições de sábado 210

A família não é formada apenas a partir da união entre um homem e uma mulher. A família se forma onde houver amor. Seja entre dois homens ou duas mulheres, uma mãe e seus filhos, sem o pai, o pai e seus filhos, sem a mãe, a avó e seus netos, sem a mãe ou o pai, o avô e seus netos, sem avó, mãe ou pai. Família é onde houver amor para viverem juntos e dividirem suas emoções e alegrias. Não há exclusividade na família. A família é inclusiva. Como em "Do mundo nada se leva", de Frank Capra. Todos eram família, até o professor de balé, a cozinheira e o ajudante de invenções do genro.

31/05/2015 - 17h13


Lições de sábado 209

Mesmo quando não se sabe nada, sabemos alguma coisa. Todo acerto começa com um erro, ou vários. Daí passamos a colecionar acertos toda vez que ousamos.

7/06/2015 - 19h55

Matisse (Robert Capa, 1949)

Lições de sábado 208

Sheherazade nunca contou uma história que fosse verdade. Eram todas invenções para entreter o sultão. E todas para adiar por mais um dia a sua morte. Mas o sultão não queria matá-la. Só adiou o dia do seu perdão. E deixou que assim pensasse para que inventasse mais histórias e ele pudesse ouvi-las.

7/06/2015 - 20h01


Lições de sábado 207

Desde os tempos pré-históricos, o homem anda para frente e para trás. Desde que deixou as cavernas, não faz outra coisa. Avança no tempo e depois retrocede. E avança novamente. Já foi tão mais evoluído, e volta sempre a ser o mesmo homem. Éramos mais modernos na década de 60. Éramos mais modernos nos anos 20. Nessa época, éramos futuristas. Toda teoria e prática do modernismo foi atingida no início do século XX. Um século depois, e estamos enfrentando um retrocesso de ideias, de conceitos, de pensamento, de filosofia, e até de religião. Nunca foram tão retrógrados.

10/06/2015 - 00h15


Lições de sábado 206

Santo Antônio é português e também italiano. Santo Antônio de Lisboa é o mesmo do de Pádua. Um dia, saiu correndo quando seu pai fora condenado à morte em Lisboa. Por isso dizemos quando alguém está com pressa: "Vai tirar o pai da forca?", como Santo Antônio correndo para salvar o pai. Coitado desse santo! Sofre na mão das mocinhas. Elas roubam o Menino Jesus ou o penduram amarrado de cabeça pra baixo, até arrumarem um marido. Deixem o santo em paz! Ele sabe o que faz do altar mesmo. Façam simpatias, rezas, promessas, novenas, acendam velas, que um dia o santo lhes traz um marido. Mas foi defendendo o Brasil que esse santo chegou aqui, pelas mãos dos portugueses. Ele rechaçou os franceses do alto de sua igreja no Largo da Carioca. E junto com São Jorge tornou-se defensor dos brasileiros, ou melhor ainda, das brasileiras. Viva Santo Antônio!
13/06/2015 - 00h22


Lições de sábado 205

Há namorados e namorados. Há aqueles que duram algum tempo e outros que duram a vida inteira. Tem aqueles que nunca mais vemos e aqueles que voltamos a ver. Tem aqueles que nunca foram e os que gostariam de ser. Alguns esperam toda a vida e outros vão embora rápido demais. Aqueles que nunca ficam e os que não queríamos que partissem. E há aqueles que vão tarde. Namorados há de todo tipo. Eu prefiro os inesquecíveis. Esses nunca vão embora. E nunca nos esquecem.
12/06/2015 - 23h10


domingo, 31 de maio de 2015

Lições de sábado 204

A poesia se escreve sem palavras, mas com palavras se escreve o poema. Com palavras se diz sim ou não, embora a boca não pronuncie nenhum som quando sorri. A boca assim comportada sabe quando falar e quando calar. Há poesia no silêncio. Mas há palavras num poema. Sem dizer nada, consigo expressar o que palavras não conseguem dizer. Os olhos falam. O silêncio fala. A língua nem se move. Mas ela se agita para dizer o poema e para dar e receber o beijo. Como na música, o poema é feito de palavras e silêncios, as pausas entre os versos, quando a mente começa a girar. E nesse giro mágico estão os sentimentos, que pousam sobre os olhos e a boca, e lhes devolvem o silêncio.

31/05/2015 - 17h25


sábado, 25 de abril de 2015

Lições de sábado 203

"A imaginação é mais importante que o conhecimento". 
Albert Einstein

As coisas mais simples são as mais fáceis de entender. Por isso precisamos simplificar tudo. Para que não fique extenso, nem cansativo compreender. Afinal, só quando entendemos podemos entrar em ação. Quando absorvemos os detalhes, as explicações, os exemplos, os modelos e conseguimos estabelecer parâmetros. Se isso não pareceu simples, então ainda não aprendeu a simplificar. É o raciocínio lógico tentar estabelecer paralelos, já que raciocinar é partir de elementos conhecidos para os desconhecidos. Foi assim para entender o Big Bang. Foi assim para estabelecer a Teoria da Relatividade. Foi assim para entender que todos são iguais perante a lei. E que liberdade, igualdade e fraternidade são preceitos universais. A lei se baseia no comum, no que parece mais simples, para traçar soluções. O que for muito complicado, o cérebro descarta. É a lei do mínimo esforço. Como o rio corre para o mar, tendemos a fazer o que for mais simples. Para que depois possamos ser compreendidos.
26/04/2015 - 1h26


domingo, 12 de abril de 2015

Lições de sábado 202


Há dias perfeitos e outros nem tanto. Há dias que guardamos na memória, como a fragrância de um perfume. E há aqueles que preferimos esquecer, ou nem lembramos mais. Mas nem sempre o que lembram de nós é o que lembramos de nós mesmos. Há pausas para que tudo se acerte. Momentos que servem de intervalo para o descanso, a meditação e para relaxar. Nesses dias, nossa mente vaga para as paisagens que vimos, as palavras ditas que nunca esqueceremos. Como bolhas de sabão numa banheira de espuma. Os melhores dias são guardados junto com outros que ficam nas sombras. Somos a mistura de perfeição e imperfeição que levamos a toda parte, mas só o que fica vale a pena. Depois de algum tempo, o que foi ruim passa. E só lembramos das horas esplêndidas, prontos para criar novos momentos como esses. 

12/04/2015 - 14h38


domingo, 5 de abril de 2015

Lições de sábado 201

Lições da Páscoa
Vivemos tempos de signos contrários. Ressurreição e morte num mesmo momento. Paz e guerra. Ódio e perdão. Razão e ressentimento. Culpa e absolvição. De uma hora para outra, os que se calavam resolveram falar. E a voz do povo é a voz de todos, não só os que estão na rua, os miseráveis, os desfavorecidos. Há uma inversão de valores, uma mudança de postura, uma transformação das classes. Tocaram a parte mais sensível do corpo humano: o bolso. E essa dor ninguém perdoa. Por mais manobra política que se faça. Terão de devolver o dinheiro que tiraram. Sigam o dinheiro. Ele dirá quem corrompeu e quem foi corrompido. Seja por delação premiada ou não, a vantagem mais antiga desde Judas que traiu Cristo. Tudo leva ao calvário. À Via Crucis. Condenado o inocente, junto com os ladrões. "Pai, perdoai-os, porque não sabem o que fazem". Nunca souberam. E por isso pecam. Mas a passagem mais incrível da Páscoa, para mim, ainda é a dos discípulos de Emaús (Lucas 21,13-3), em que vieram andando com Cristo pela estrada, mas não o reconheceram, e o chamaram para cear, por já ser tarde, e quando ele partiu o pão e viram quem ele era, Cristo desapareceu... Uma passagem assombrosa, considerando quem ele era. Só por isso a Páscoa se torna ainda mais incrível. Momento de transformação, de ressurgir das cinzas, porque tudo muda, nada está parado, nem estático, por mais que permaneça aparentemente imóvel.
Domingo de Páscoa, 5/04/2015 - 17h05



sábado, 4 de abril de 2015

Lições de sábado 200

Como dizia Santa Teresinha, "Tudo passa". Tudo é passageiro, menos o motorista e o cobrador. O motorista deve ser aquele que chamamos Deus e o cobrador, o filho dele, que fica de olho em todo mundo. Boa piada, mas a verdade é que todas as coisas têm seus ciclos, todo caminho tem trechos mais longos ou mais curtos, tudo está em constante mutação, mesmo que não percebamos num primeiro momento. O que era e continua sendo pode mudar de feição, como a paisagem não parece a mesma de noite como de dia. E sabendo que tudo passa, ao terminarmos um ciclo, seguimos em frente, carregando parte do que trouxemos conosco e deixamos algumas coisas para trás, porque não somos caminhão de mudança para levar tudo nas costas. Fases são importantes, mas o melhor é que terminam e podemos começar algo completamente novo e melhor. Como entramos numa nova fase astrológica, as coisas começaram a mudar, e aceitar mudanças é o melhor modo de evitar doenças. E deixar para trás algo que já "morreu" é o quanto basta para fazermos novas coisas, ainda melhores que as primeiras. Às vezes nos limitamos sem necessidade. Ou quando a necessidade passa, é preciso fazer outra coisa. Mudar é uma delas. A cada ano, registro uma mudança crucial. Nunca estou fazendo a mesma coisa quando chega meu aniversário, em julho. Assim em março/abril, as coisas começam a mudar, para que quando chegue dia 10 de julho (Dia da Pizza), já esteja tudo em seu lugar. Agradeço pelas mudanças, por ainda acreditarem que posso fazer mais do que já fiz. 

31/03/2015 - 11h06 - 126 anos da inauguração da Torre Eiffel


Lições de sábado 199

A inveja não destrói a verdade. Fofoca, maledicência é uma indecência. E mesmo que se mordam, não vão mudar nada, nem a si mesmos. Ninguém se engrandece querendo destruir o que é dos outros por direito. Eu os perdoo, porque não se ganha nada em querer destruir o que não é seu. Construam, em vez disso, algo para si mesmos. E não percam tempo destruindo o que não lhes pertence.

1o/04/2015 - 4h30




sexta-feira, 20 de março de 2015

Lições de sábado 198

Maria Thereza Silveira de Barros Camargo, minha avó e minha mãe, Maria Thereza de Barros Camargo, com dois anos e meio, em novembro de 1930, em Limeira, alguns anos antes de minha avó se tornar a primeira prefeita do Estado de São Paulo, e minha mãe, uma das primeiras arquitetas a se formar em 1953, na Faculdade de Arquitetura Mackenzie, pioneiras em seus campos profissionais. D. Therezinha, como era conhecida, era "a única mulher que mandava em homem no interior de São Paulo". Participou da Revolução Constitucionalista, em 1932, como chefe do banco de sangue da Santa Casa de Limeira, e depois foi nomeada prefeita, em 1934, recebida por Guilherme de Almeida, em sua posse, renunciando para se candidatar a Deputada Estadual na Constituinte desse ano. Foi cassada no Estado Novo, instalado em 1937, com os demais deputados. Voltou em 1945, após a renúncia de Getúlio Vargas, filiando-se ao PSD, ao lado de Ulysses Guimarães, de quem era madrinha política. Sua casa em Limeira era visitada por políticos nacionais e internacionais que vinham aconselhar-se com ela. Em 1948, o PSD aliou-se ao PTB e teve de apoiar a candidatura de Getúlio à presidência em 1950, por determinação do partido. Nessa ocasião, recebeu a visita de Vargas, que se hospedou em sua casa durante a campanha. Era neta do primeiro presidente civil eleito por voto direto, Prudente de Moraes, e nasceu três dias antes de sua posse em 12/11/1894, e foi batizada no Palácio Itamaraty. Brincou nos jardins do Palácio do Catete entre 1897 e 1898, dos 3 aos 4 anos de idade. Foi atuante nos bastidores do partido durante todo o período após o Estado Novo até o golpe militar de 1964. Minha homenagem hoje a essas duas mulheres que determinaram o eixo e a direção da minha vida pela educação e formação que recebi. Não convivi muito com minha avó, pois minha mãe era a caçula de seis irmãos, e eu uma das últimas netas, portanto, ela já sofria de arteriosclerose quando eu era adolescente. Morei em sua casa em São Paulo, na Av. Brasil, na esquina da Rua Venezuela, entre 1959 e 1960, quando meu irmão nasceu. Lembro, no entanto, de um almoço, aos dois anos de idade, quando quis repetir o manjar branco e meu pai me impediu. Vovó, que adorava crianças (e brincava também de passa-anel comigo), disse-lhe: "Deixe a menina comer". Nunca um manjar branco teve um gosto tão maravilhoso como aquele. Como tinha feito o magistério, alfabetizou todos os filhos, e dos vizinhos que vinham brincar na chácara em Limeira. Sua plataforma política era "fechar cadeias e abrir escolas", além do voto distrital, também defendido por Ulysses. Hoje em Limeira há uma escola pública que leva seu nome. Coincidentemente, sua casa em São Paulo tornou-se a Escola Morumbi. A chácara de Limeira foi desapropriada e durante algum tempo foi a Câmara Municipal. A piscina olímpica que mandou construir para os filhos (pois adquirira o imóvel de seu cunhado para a propriedade não sair da família, depois que ficou viúva, em 1930), é hoje a piscina municipal de Limeira. Além da atividade política, assumiu, após a morte do meu avô Trajano de Barros Camargo, a fábrica de máquinas de beneficiamento de café, a Machina São Paulo, que foi vendida em 1960, para a Mercedes-Benz. Minha avó faleceu em 1974, aos 79 anos e minha mãe no ano passado, aos 86. A bênção, minha avó, a bênção, minha mãe.

8/03/2015 - Dia Internacional da Mulher




Limeira, novembro de 1930.

Lições de sábado 197

Missão: aniquilar a ignorância. Incutir em todos os valores da literatura, dos livros, dos poemas, dos romances, da História, das personalidades históricas, dos personagens literários, das lendas, dos contos de fada, das parábolas, das crônicas, dos contos, dos filmes, dos desenhos animados, das histórias em quadrinhos, criando uma conversa mais rica e útil, espalhar a cultura geral, o conhecimento, os detalhes biográficos, a História do Brasil, os políticos notáveis, criando uma perspectiva histórica, explicando a base legal da Constituição, das leis novas e antigas, o uso correto da gramática e do vernáculo, as acepções das palavras, a origem das expressões que usamos, os usos e costumes dos negros e dos índios, dos povos que imigraram para o Brasil trazendo suas tradições, a herança portuguesa. Explicar de modo muito simples como aconteceram essas influências ao longo do tempo, dando mais importância à nossa própria existência.

20/03/2015 - 22h00




Foto de Vitor Vogel para "As liras de Marília", Ibis Libris, 2013. 

quinta-feira, 12 de março de 2015

Lições de sábado 196

Há dias em que nem deveríamos acordar, como disse Silvio Ribeiro de Castro em seu poema "Amantes", mas temos de sair da cama assim mesmo. Nada dá certo nesse dia. Recebemos uma carta de cobrança, um mandado de intimação, um oficial de justiça na porta, um telefonema do banco, um e-mail de alguém insatisfeito, um boleto de custas judiciais da Vara da Fazenda Pública de uma dívida herdada dos nossos pais. Há dias em que não estamos preparados para receber más notícias, mas temos de recebê-las assim mesmo. A morte de um conhecido, o acidente de um ator famoso, a condenação de um músico por fraude, quando tudo que ele queria fazer era prestar uma homenagem ao cantor. A primeira página do jornal está cheia de notícias terríveis. Vão aumentar a alíquota do imposto de renda, a luz e a água subiram, o IPTU está mais caro, a água vai ser racionada, os preços do supermercado subiram, mas temos de pagar as contas do mês assim mesmo. A única diferença quando essas coisas acontecem e quando não acontecem é que agora sabemos quem é o inimigo e o tamanho da fatura que teremos de pagar, e que tudo que fizemos até hoje pode ser entendido ao contrário, porque quem nos vê pensa que tudo nos é dado de graça, quando isso não é verdade. Só nós sabemos quanto temos de correr para ficar no mesmo lugar, como é matar um leão por dia, o esforço que fazemos para que tudo dê certo no final. Mas ninguém se importa. Só interessa o flash e o clique da máquina fotográfica congelando o momento e ali você parece feliz e despreocupado. Não interessa se a pressão subiu ou possa estar sofrendo de diabetes. O mundo não é uma foto no Facebook. Há dias que pedimos que acabe logo, mas ele irá durar as exatas 24 horas de qualquer dia. E nossa vida o tempo regulamentar ou até puxarem o cartão vermelho do bolso e nos colocarem para fora de campo. Até lá, sorria. Não vai fazer a menor diferença se der certo ou não, porque tudo no final se ajeita. Os caminhos são tortos, e muito tortos, por sinal. Já passamos por tantas poucas e boas, e não vai ser agora que isso vai mudar. Dizer que eu errei não me faz ter cometido o erro. A crença de que erramos não é o erro. Quando nos acusam, acusam em si mesmos o que não fizeram e temos de provar a nossa inocência, quando se é inocente até prova em contrário. Há dias que não deveriam existir no calendário, mas existem. E nada pode ser feito para evitá-los. Mas acredite que, no final, o feitiço vira contra o feiticeiro.
12/03/2015 - 21h51


sábado, 7 de março de 2015

Lições de sábado 195

Deixamos para depois as primeiras necessidades. Aprendemos a procrastinar. Um desejo adiado é um desejo irrealizado. "Um beijo não dado é um beijo perdido para sempre", disse-me uma amiga quando eu tinha 13 anos de idade, e nunca mais esqueci disso. Pautei a partir dessa frase todas as decisões que tomei na vida. Eu não deixava para depois o que poderia fazer agora. Não fazer algo poderia adiar para sempre o que eu desejava fazer. Então, por que esperar? Saber tomar decisões na hora certa é fundamental para acertar seu futuro. Dúvidas e decisões adiadas suspendem os efeitos das nossas ações. Não agir é o melhor modo de não ser, exceto quando for uma escolha. Também é preciso saber quando não agir. Trinta anos depois, minha amiga morreu, mas no dia do seu enterro, um pensamento me assaltou enquanto eu atravessa o cemitério até o crematório: "Um beijo dado é um beijo guardado para sempre". Era a resposta que ela guardara para mim mesmo atrasada para o velório e a cerimônia de cremação no Caju. Aprendi com ela a não adiar, a não procrastinar, a não deixar para depois o que poderia fazer agora, e somente adiar o que fosse impossível fazer hoje. Aprendi com outra amiga a não me esforçar desnecessariamente. Todo esforço induz ao erro. "Suavemente, sem esforço", ela dizia. Então aprendi a esperar o momento de agir, quando não houvesse esforço. Aquilo que vinha naturalmente era o sinal do acerto. Buscar o equilíbrio entre agir e não agir é uma ciência pouco estudada. E saber ler os sinais do que está à nossa frente. Aceitar o imponderável e compreender o imprescindível. Seguir a intuição. Decifrar o que nos é apresentado como segredo. Os gênios aprendem a decodificar o presente. Nele está tudo que precisamos saber trazido do passado, e que nos mostram, por meio de símbolos, o que precisamos aprender.
7/03/2015 - 16h37


sábado, 21 de fevereiro de 2015

Lições de sábado 194

Hoje foi um dia de perdão. Não apenas o perdão que buscamos dar, mas o que queríamos receber. O perdão é só um gesto que tem o condão de transformar o sentimento que estava perdido, de retomar a direção que deveríamos ter seguido e que perdemos no curso dos dias. Basta que um perdoe para que todos perdoem e possam ser perdoados, reaproximando os que se afastaram por essa negligência, por essa falta de perdão. O perdão absolve, dissolve os nós da carne e restabelece o diálogo. O que julgávamos ter perdido é devolvido intacto, como se o tempo tivesse suspendido todos os efeitos da negação. Se hoje perdoei e fui perdoada por quem nem esperava ouvir esse pedido, abranda e aproxima as distâncias que nos impusemos. Tudo que foi dito por erro ou pelo ego. Tudo que foi pensado injustamente. E nos vemos novamente no ponto de partida. Recomeçar é um ponto de partida. Mesmo que nada se possa fazer para mudar o que aconteceu, pode-se mudar o que será feito. Novas palavras serão ditas para remediar o espaço em branco, o vácuo, a cisma, o abismo. E não há outro conforto senão ver novamente próximas as pessoas que pensamos haver perdido. Retomamos a caminhada com a certeza de que o mesmo erro não será repetido.

22/02/2015 - 00h50


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Lições de sábado 193

"Do amor, não se faz biópsia, só se faz autópsia", disse-me um amigo citando outro. Várias vezes recorri a essa máxima, toda vez que tentava entender o momento que estava vivendo de certo relacionamento. Quando somos capazes de dissecar uma pessoa, ela já morreu. E, por algum tempo, mantemos o luto. E, em outro, mantemos distância. Tentamos entender racionalmente o que não se explica nem pela emoção. A emoção nos trai a todo momento, porque somente guardamos o que foi bom. E temos de nos lembrar o que não deu certo. O que nos tirou da rota e nos desviou do caminho. Que escolhas fizemos para nos proteger. Há homens impossíveis de amar. Por serem incapazes de demonstrar o amor que sentem. E expressam exatamente o contrário. Colocam a raiva e os ressentimentos em primeiro lugar. Não podemos tentar analisar tudo, pois não é uma sessão de terapia. Tentamos, parcialmente, compreender o que falhou, o que faltou, o que nos fez mudar de direção. Um encontro é carregado de expectativas, que se desenrolam suavemente e, por vezes, encontram obstáculos, surgem mal entendidos, criam-se problemas que não prevemos. Nunca prevemos problemas. Sempre temos de enfrentá-los a frio. Sem preparação. E não podemos desfazer as escolhas, nem retirar o que dissemos e o que ouvimos. Se um amor não deu certo, acertamos quando quisemos amar. E quando nos acreditamos amados. E, depois, quando não resta nem mais a ternura que nos aproximou, passamos a desfiar os enganos, os atos inesperados, as acusações esdrúxulas. Partimos. E, nessa separação, nos distanciamos rapidamente do ser que amamos, para passamos a vê-lo como miragem. Como ilusão de um dia ter amado alguém impossível de amar. Por se negar a receber esse amor como o oferecemos. Amor não exige fórmulas. Apenas brandura, porque ninguém é obrigado a ser quem não é, nem a obedecer ordens de um parceiro tirano. Na necropsia, retiramos o coração e o olhamos de perto. O que ele não possui que não conseguimos entender? Nem aceitar? E na mistura estranha de amor e ódio, aquecidos pela falta do ser que queríamos amar, vemo-nos inteiros, a acalentar um tempo que pareceu um sonho e, como de todo sonho, despertamos. 

16/02/2015 - 22h26