quinta-feira, 6 de julho de 2017

Lições de sábado 305

A morte não dá trégua, ela é trágica, é inesperada e imensa. A vida vista desse ponto de vista torna-se frágil demais para suportar a perda. Porém, só há uma coisa que a morte dá: a eternidade. Eternidade que não temos em vida. Eternidade na mente de todas as pessoas que nos conheceram e amaram. Assim, nossos pais depois que morrem tornam-se eternos, pois para nós continua vivo em nossas mentes, e no nosso coração. Todos os que partem deixam esse gosto de saudade, essa melacolia por não podermos estar mais próximos. Mas essa mesma distância inesperadamente se inverte, colocando dentro de nós alguém que nunca partiu. 

29/04/2011 - Para uma amiga que acaba de perder o pai



quinta-feira, 29 de junho de 2017

Lições de sábado 304

Precisamos de poucas certezas. Algumas têm a ver com o amor. Outras com a sobrevivência. Outras ainda com os filhos, a família, o trabalho. Mas menos ainda com nós mesmos. Eu não precisaria de muito, mas o pouco vai se alastrando e, quando vemos, carregamos um vagão de coisas acumuladas das quais nem nos lembramos mais. Mas o que é essencial fica. Podemos perder toda a nossa bagagem, para ficar apenas com o indispensável. Somente o necessário, diz a música do urso Balu para Mogli. O extraordinário é demais. E isso deveria nos bastar. Avançamos em todas as frentes, para fazer mais, ter mais, ir a mais lugares e, ao voltarmos, temos malas demais. Despir-se ou despedir-se do que não precisamos é uma escolha. Um médico ao definir a fome disse: "Se trocar a comida por outra coisa, não é fome. Porque, se estiver com fome, não irá trocá-la por coisa nenhuma". Assim, se preferir Paris a um prato de doces, na verdade, não quer os doces. Se trocamos uma coisa por outra, aquilo que preterimos não tinha nossa preferência. Sempre temos de escolher, mesmo que não queiramos. Mas ficar com o essencial, o imprescindível, o insubstituível, aquele que é o único no mundo, isso, sim, é certeza. 

29/06-2017 - 12h46 - Dia de São Pedro

 



quinta-feira, 8 de junho de 2017

Lições de sábado 303

"Admirável Mundo Novo" (1931), de Aldous Huxley, "1984" (1948), de George Orwell e "Fahrenheit 451" (1953), de Ray Bradbury, são três livros que assombraram os leitores com suas previsões de futuro. Um escrito antes e, os outros dois, após a Segunda Guerra Mundial, tinham a visão catastrófica de futuro de seus autores, onde uma nesga de esperança se esboçava. Em geral, essas histórias se confundem no imaginário, pois todas revelam a pior face do homem, contrastada com o desejo de superação ante as intempéries. Mesmo que os protagonistas sucumbam, haja traição ou rivalidades, a mensagem que passam é que pode existir um mundo melhor, podem haver homens e mulheres melhores e que o egoísmo e o poder não sufoquem a liberdade de pensamento e de ação. Num momento em que falamos de libertar livros, de professores e de escolas, de crianças e poesia, a morte do autor de "Fahrenheit 451", Ray Bradbury, vem pontuar este momento de valorização da escrita, de mudança de hábitos, de transmissão de ideias, de novos autores, de futuro dos livros, este autor que temeu pela extinção da cultura e do conhecimento nesta ficção em que os livros são banidos e queimados, fazendo pessoas decorarem os textos e se transformarem em livros para que eles não se percam. É uma das histórias mais tocantes para mim, desde que assisti a este filme de François Truffaut, de 1966, com este ator tão carismático, Oskar Werner e a sempre querida Julie Christie, que fez o papel duplo de mulher de Montag e da amiga Clarisse, que o leva para a "terra dos homens-livro", onde se refugiam aqueles que sabem os livros de cor. Oskar Werner era austríaco e fez poucos filmes, que ficaram famosos, mas, entre eles, estão "O espião que veio do frio", "As sandálias do pescador" e "Jules e Jim". Julie Christie, entre os vários filmes que fez, atuou em "Doutor Jivago", com Omar Shariff e "O céu pode esperar", numa nova versão, com Warren Beatty.

7/06/2012 - 12h07


sexta-feira, 26 de maio de 2017

Lições de sábado 302

Em 26 de maio de 1897, Bram Stoker publicou "Drácula", sua obra mais importante, inspirada num original de Dr. John Polidori, médico de Lord Byron, que escreveu "O Vampiro", durante três dias que passaram confinados no castelo do poeta, à beira do Lac Léman, em Genebra. Por sua vez, Mary Shelley, que acompanhava o marido Percy Shelley, nessa mesma ocasião, iniciou a escrita de "Frankenstein", publicado em 1818, de onde se pode concluir ser o irmão literário de Drácula. Byron escreveu o Canto III de Childe Harold e Shelley não aproveitou nada do que escreveu. E nesse dia, em 1799, nasceu Alexander S. Pushkin, escritor russo, autor de "Eugene Onegin", um romance em versos, transformado em ópera, em 1879, por Tchaikovsky e, posteriormente, em balé. Pushkin traduziu algumas das liras de "Marília de Dirceu", de Tomás Antônio Gonzaga, publicado em Lisboa, em 1792, o mesmo ano do degredo do poeta português para Moçambique após a Inconfidência Mineira. De algum modo, esse livro (best-seller em seu tempo, com 30 edições no século XIX) chegou às mãos do poeta russo, que morreu em 1837, dois dias após ter sido ferido num duelo com o suposto amante de sua mulher. Coincidências literárias que nos dizem que a vida passa por dentro da literatura. 
26/05/2017 - 11h06




quinta-feira, 18 de maio de 2017

Lições de sábado 301


Pedro encontra Bandeira na praça

Meu amigo Pedro Lage, aos dez anos, conheceu Manuel Bandeira, apresentado pela avó, numa feira de livros, no centro da cidade. Ao saber que aquele era o poeta que escrevera os poemas que ele havia lido, imediatamente perguntou a Bandeira: "Você esteve em Pasárgada?" O poeta sorriu e disse que não. Pedro ficou inconformado. Nessa história, três coisas me assombraram: primeiro, ele ter tido a chance de encontrar o poeta, apresentado pela avó; segundo, já conhecer o poema "Vou-me embora para Pasárgada" aos dez anos de idade e, terceiro, ter feito esta pergunta a Bandeira à queima-roupa. Só um dos fatos já me encantaria, mas os três juntos, são sublimes. 

16/05/2016 - 17h12



domingo, 14 de maio de 2017

Lições de sábado 300

Tudo que fazemos reflete quem somos. Somos somente o reflexo do que pensamos. Se o que pensamos é o reflexo do que sentimos, somos o que sentimos e fazemos o que pensamos.

6/05/2014 - 12h19


Lições de sábado 299

Estamos vivendo uma nova Inconfidência, em que privilegiam os delatores da mesma corja de bandidos. Os Silvérios e Calabares são os heróis da mesma Corte que eles dilapidam. É um tempo sério em que não teremos mais em quem confiar. Perdeu-se a confiança no governo e nos governantes e dirigentes do País. O poder troca de mãos entre delatores e delatados e os que se locupletam com a dança das cadeiras. Ordem e progresso saíram de nossa bandeira. Nunca se viu tanta vergonha na História deste Brasil.

7/05/2015 - 14h05


Lições de sábado Vol. 1 e 2

A dois textos de completar 300 Lições de sábado, aproveito para anunciar a publicação de "Lições de sábado Vol. 2", que estará disponível no segundo semestre. Como este ano está muito mais devagar que os anteriores, as edições estão custando mais a sair, mas não para serem escritas. Escrever é fácil. Publicar merece muito mais tempo, dedicação e dinheiro, principalmente dinheiro, porque inspiração é o que não falta. Lições de sábado Vol. 1 está disponível no site da editora: http://ibislibris.loja2.com.br.


Lições de sábado 298

Tomados pelo amor, Tristão e Isolda, relutam, até o fim, para se entregar ao que o destino lhes reservou. Um amor maior que eles mesmos, que eles aceitam e negam, e são capazes dos maiores sacrifícios para vivê-lo. A tragédia em pleno ar. Um não pode se sobrepujar à vontade do outro. A vontade de um tem que conter a vontade do outro e irmanarem-se em seu afeto. A pureza dos sentidos os tira da realidade e os devolve ao lugar onde essa entrega se realiza, muito além deles, além de suas forças, onde eles jamais estariam se não se amassem. O que vemos diante dos olhos foi feito para nos ludibriar. Nada é tão simples quanto parece e tudo precede algo melhor. Se hoje não fiz tudo que queria, amanhã poderei ter essa chance, e vivemos mais nos interregnos do que quando estamos realizando. “A espera que é magnífica”, já disse André Breton, em seu “L’amour fou”, onde cabem todos os gestos, principalmente os de amor. Nada sabemos, mas tudo podemos fazer, mesmo sem conhecer a fundo todas as possibilidades. Quando não se sabe o que fazer, não faça nada: é melhor errar por omissão. Ninguém pode culpá-lo por não saber.

10-11/08/2013 - 19h



sábado, 6 de maio de 2017

Lições de sábado 297

As coincidências se acumulam. Todas as coisas vão se acumulando de símbolos. Cercam-nos e nos dizem onde estamos indo. Um alerta para dias sem nuvens. Quando o vento não sopra a direção e é preciso navegar os ares. Os sinais são a única forma de saber que estamos indo na direção certa. A vida seria um deserto se não soubéssemos para onde ir.

6/05/2017 - 12h33


sexta-feira, 5 de maio de 2017

Lições de sábado 296

Os dias não são brandos. Eles carregam os frutos pesados do tempo. Embora tentemos descartar todos os pomos de discórdia, eles voltam no mesmo cesto onde colhemos nosso alimento. O que plantamos com o que nos dão forma a árvore que temos plantada em nosso jardim.
2/05/2017 - 13h16



quinta-feira, 9 de março de 2017

Lições de sábado 295


Erro de tradução: Jesus não era carpinteiro, era arquiteto. "Tekton", em grego, derivou para "architekton" (grande construtor). Uma das descobertas ao ler "O que Jesus disse, o que Jesus não disse: Quem mudou a Bíblia e por quê", de Bart D. Ehrman, um livro realmente surpreendente. A informação "carpinteiro" foi fruto da má tradução e só foi escrita uma vez no Novo Testamento. A Bíblia (que quer dizer "vários livros") foi escrita por vários autores, e seus textos originais se perderam ou foram mal copiados ou mal traduzidos, ou seja, criaram uma confusão muito grande, e o resultado não é um livro divino, mas um livro humano, pois, se Deus quisesse que sua palavra fosse escrita, teria deixado um documento imutável. Mas como Deus não precisa de palavras, nunca escreveu um livro e só os homens escreveram. O que nos salva é nossa fé, que não precisa de palavras, pois não se pode prová-la senão através de milagres.

9/03/2012 - 17h53


quarta-feira, 1 de março de 2017

Lições de sábado 294

Amar é a única forma de recriar-se. Deixar de ser qualquer um e ser outro, que é o mesmo, com a mesma fórmula sintética do agora. Agora é onde estamos irremediavelmente - e porque sabemos, antes de todas as coisas, somente serão perfeitas se forem amadas. E deixamos todas as outras fenecerem. A árvore da vida renova seus frutos, porque nos alimentam. E para nos alimentarmos do novo. Veremos o futuro com os mesmos olhos de hoje. E serão novas visões do Paraíso.


1/03/2017 – 13h56


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Lições de sábado 293

O que é o amor senão um pássaro que a toda hora vem cantar? Não nos deixa sossegados com seu pio constante, um canto longo, outras vezes curto, mas contínuo e insistente. E por que amamos? Amamos porque o pássaro não nos deixa até que paremos tudo que fazemos, e saibamos que o amor é livre como um pássaro e tão frágil como a dor. O amor do pássaro não sossega até que o aceitemos: ele, tão simples como é, tão simples como o amor.

30/01/2013 - 9h56



Lições de sábado 292

Só certas pessoas podem nos fazer felizes. Não basta dizer que a felicidade é interior. Quem é feliz mesmo, é feliz com alguém e não sozinho. Aí a felicidade interior sai para dar um passeio.

30/01/2017 - 12h



Lições de sábado 291

Dizer o que se sente é como nascer a cada palavra.

30/01/2017 - 10h23


Lições de sábado 290

A visão nos ajuda a crer, mas a crença nada tem a ver com a visão.

23/01/2012 


Lições de sábado 289

Existem dias que duram para sempre: aqueles que fazemos o que gostamos, que vamos onde queremos, que passamos o tempo que der com quem gostamos, sem hora para voltar, senão quando já estamos cansados. Esse é o resumo de um dia feliz. Um dia para não jamais esquecer.

31/01/2013


Lições de sábado 288

O livro porta milhares de palavras ordenadas, para dizer o que o pensamento sozinho já entendeu. Ler é trabalho dos olhos. Entender, do coração.

31/01/2017 - 17h58


domingo, 29 de janeiro de 2017

Lições de sábado 287

Deveríamos ser eternos, em nossa eterna beleza e juventude, com todo o tempo pela frente, e toda a vida por viver. Não existir passado, nem futuro, só o presente. E, nesse presente, sermos inteiros, quem realmente somos.
29/01/2017 - 15h58




Lições de sábado 286

Os filhos pródigos

Quando Vinicius disse, em seu poema, "Filhos, melhor não tê-los", estava alertando para o momento em que o filho se despede para ganhar o mundo, deixando o teto da casa paterna para aventurar-se sozinho, levando o tesouro dos ensinamentos dos pais. Levarão tudo o que aprenderam durante os anos de convívio, sejam boas maneiras, ou até o modo de reagir diante de intempéries. Não estaremos ao lado para preveni-los ou ajudá-los. Terão de se virar sozinhos. Mas, em algum momento, eles voltam, seja para agradecer ou uma simples visita. Mesmo que passe muito tempo, os filhos pródigos retornam, pródigos, porque gastaram tudo que lhes demos, seja em bens ou em conhecimento. E só podiam se valer disso. Um dia, reconhecerão o que receberam. E o filho que fica, esse que nunca nos abandona, nem por um minuto, é recompensado todos os dias, por sua persistência. Essa parábola sempre me tocou, e não poderia ser mais verdadeira. Quando Vinicius disse "melhor não tê-los", era para não termos de passar por duros momentos com nossos filhos, pois eles são capazes das maiores crueldades quando se revoltam. Mesmo que depois se arrependam. Se não os temos, nunca saberemos que eles podem também ser cruéis. Deixemos os filhos serem como são. Longe ou perto. Próximos ou distantes. A liberdade é o único preço que se paga caro. Se não nos compreendem, um dia, compreenderão. Mas devemos perdoá-los, mesmo que não entendam o nosso perdão.   

29/01/2017 - 12h15

O retorno do filho pródigo, de Rembrandt, detalhe. 

Lições de sábado 285

Somam-se os anos e a terra evolui por si mesma. Toda manhã ela se volta e sorri. Caem as folhas no solo e as árvores se despem. Vestem uma grinalda de orvalho e secam lentamente até a tarde. Um dia é isso. Um a um nos despedimos. Um de cada vez se vai antes de nós. E nós, irmãos em quase tudo, seguimos nossos destinos.

29/01/2017 - 11h26


Lições de sábado 284


É como encontrar um diamante na areia. Algo tão inusitado como descobrir-se só diante de algo que ninguém viu. O que se vive sozinho só tem valor para nós, pois a experiência é intransmissível. Por mais que digamos, nada do que se sente pode ser dito, só esboçado. Jamais as palavras bastarão. Viveremos mudos diante de um cenário indescritível.
29/01/2017 - 10h13


sábado, 28 de janeiro de 2017

Lições de sábado 283

Tudo leva um tempo a mais para acontecer. Demora o suficiente até compreendermos o que estamos fazendo. Demora até que todos os interessados estejam presentes. Demora até que as condições ideais se apresentem. Demora até percebermos que teria que ser agora e não antes que algo deveria acontecer. Tudo vem a seu tempo. Mesmo que esse tempo demore. Apesar disso, acaba acontecendo com um ar de perfeição que surpreende a todos, pois foi o tempo que levou para se preparar até ficar pronto.
Feliz Ano Novo do Galo de Fogo
27/01/2016 - 14h


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Lições de sábado 282

São longos os dias que passam. Mais longos do que antes. Longuíssimos em suas larguras, por onde os ventos sopram e ficamos como os nós entre os ramos das árvores, entretidos com as palavras que restaram nos lábios, duras nozes hoje partidas, que jazem dentro do copo. A vida se basta. E, com ela, as noites que findam.

27/01/2011




sábado, 21 de janeiro de 2017

Lições de sábado 281

Assim sonho minha sombra, sempre dançando por onde passo. Em mim, há uma bailarina que nunca pára de dançar. Ela está sempre ao meu lado, saltitando com tutu e sapatilhas. Quando me pego distraída, faço um movimento. É ela que dança quando estou esquecida.
21/01/2012 - 10h40




terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Aviso aos leitores

O livro "Lições de sábado" está disponível em http://ibislibris.loja2.com.br/6013770-Licoes-de-sabado, com os 110 primeiros textos, de 2011 a 2013.
Quem quiser adquiri-lo, poderei enviar autografado.
Arigatô.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Lições de sábado 280

Há um tempo de amor imenso que se abre sobre nós. Sem percebermos, esse amor nos cerca com a mesma leveza do voo das aves, planando acima das cabeças, como deuses alados. Que deuses que nos amam que não sabemos? Que deuses adoramos que não dizemos? Vênus e Marte se encontram em conjução altíssima e, em seu amor recíproco, caminham num leito de folhas, por onde as águas escorrem em direção ao mar.
11/01/2016 - 17h20

Vênus e Marte de Botticelli (Florença, 1445-1510)


Lições de sábado 279

Quando se perguntar o que está fazendo por si mesmo, lembre as horas que passa sozinho e com o que ocupa seu tempo.

11/01/2012 - 15h22


Lições de sábado 278

Serei um pássaro grave, acima da janela, a passar pela porta, um poeta que deixa suas asas presas e arredias, sem cantar ou mover-se, como uma sombra de árvore, num dia sem vento.

11/01/2013 - 15h20


Lições de sábado 277

O mundo não é propriamente meu. Eu pertenço a ele, como pertenço às coisas e às pessoas. Pertencemos a quem amamos incondicionalmente, mesmo que nada aconteça como se espera. E cada pessoa nos pertence por pertencermos a elas.

11/0/2013 - 15h17


Lições de sábado 276

Teremos mais tempo quando estivermos sozinhos, pensamos. Teremos mais espaço quando tivermos nossa casa. Iremos a mais lugares quando desistirmos das urgências. Seremos outros se tivermos a chance. O tempo que tomamos para nós é nosso. E o tempo que damos ao outro é nosso também. A proximidade nasce da amizade e das semelhanças. A longa viagem de volta ao lugar de onde saímos.

11/01/2015 - 14h38


sábado, 7 de janeiro de 2017

Lições de sábado 275

Nasci de madrugada. Por isso é tão fascinante para mim. O começo da noite é uma celebração. Para os celtas, é o começo de um novo dia. Eles contavam noites, não dias. Assim, o entardecer é a hora mais bonita, e o crepúsculo, o lusco-fusco tem a cor de azul que não se vê em lugar algum. Os fins de tarde são os momentos mais belos - assim como os amava o Pequeno Príncipe. A tarde parece não querer terminar e, no entanto, caminha para o seu fim. A manhã seguinte lava dos olhos todo breu da noite em que mergulhamos as nossas cabeças - o orvalho são as lágrimas com que nos despedimos da escuridão. Dia e noite são opostos necessários, para ver um, o outro tem que existir e o chacoalhar dos bichos noturnos dentro do coco fez com que o indiozinho o quebrasse para libertar a noite. Antes só havia dia. E Tupã, por piedade, separou-os, para tirar os homens de uma eternidade sem luz.
6/01/2012 - 13h27